A morte do Papa Francisco, anunciada no Vaticano na segunda-feira, 21 de abril, encerra um papado de 12 anos marcado por críticas contundentes à maneira como a economia global tem sido conduzida.
Desde os primeiros momentos como pontífice, Jorge Mario Bergoglio fez da luta contra a desigualdade e a exclusão social um eixo central de sua liderança, promovendo o que ficou conhecido como a “Economia de Francisco”.

Para ele, o sistema atual privilegia o lucro acima da vida humana, contribuindo para a marginalização de milhões de pessoas em todo o mundo.
“Essa economia mata”: a exortação de 2013
Já em novembro de 2013, poucos meses após assumir o Trono de Pedro, Francisco lançou sua primeira exortação apostólica, Evangelii Gaudium, na qual afirmava: “da mesma maneira que se comanda ‘não matarás’, deve-se dizer ‘não a economia da exclusão e da desigualdade’, já que essa economia mata”. Ele denunciava a concentração de renda, a idolatria do dinheiro e a dominação do sistema financeiro sobre as políticas públicas.
Essa crítica não era apenas simbólica. O Papa rejeitou o uso de adornos dourados, como o tradicional Anel do Pescador, e adotou uma rotina mais austera, inclusive morando em um apartamento simples dentro do Vaticano. O nome escolhido para seu papado – Francisco – é uma referência direta a São Francisco de Assis, o santo dos pobres.
Pandemia, crise e desigualdade
Durante a pandemia de Covid-19, a posição do pontífice se fortaleceu. Em 2020, ele publicou a encíclica Fratelli Tutti(Todos Irmãos), reforçando que o mercado não era capaz de resolver os principais desafios sociais. Francisco foi enfático ao afirmar que acreditar cegamente no “dogma do mercado” era um erro grave da sociedade moderna.
Nesse período, os efeitos do coronavírus escancararam as desigualdades econômicas: enquanto bilionários aumentaram suas fortunas, milhões de pessoas enfrentaram desemprego, insegurança alimentar e falta de acesso à saúde. O Papa Francisco apontava a necessidade de repensar o sistema tributário internacional e propunha a taxação dos super-ricos como uma das soluções possíveis.
A Economia de Francisco: jovens, inovação e justiça social
Em 2019, a proposta do Papa inspirou a criação da comunidade internacional Economia de Francisco, composta por jovens economistas, empresários e ativistas. O objetivo era criar modelos alternativos de desenvolvimento, com foco em justiça social, inovação sustentável e solidariedade.
A fundação oficializada pela comunidade atua em três frentes: pesquisa-estudo, negócios-inovação e educação-cultura. Em encontros anuais, os participantes discutem propostas para uma economia mais ética e voltada para o bem comum. Em uma dessas reuniões, Francisco questionou diretamente a indústria armamentista, afirmando que “ganhar dinheiro para matar” enquanto milhões passam fome é uma contradição moral inaceitável.
Impacto econômico e político das ideias do papa
As ideias de Francisco influenciaram até mesmo políticas públicas e discussões em fóruns internacionais. Em 2024, por exemplo, ele promoveu um encontro global para debater a taxação de grandes fortunas, com apoio de líderes como Pedro Sánchez (Espanha) e Cyril Ramaphosa (África do Sul).
O Vaticano também publicou comunicados alertando para o papel dos “ultra-ricos” na manipulação de decisões políticas e defendendo uma reforma tributária mais justa. Embora não seja possível quantificar diretamente o impacto econômico dessas ações, elas criaram espaço para pautas progressistas em organismos como o G20 e a ONU (Organização das Nações Unidas), pressionando por um redesenho das regras do capitalismo global.
Um líder que inspirou além da Igreja
Antes mesmo de se tornar papa, Jorge Mario Bergoglio já demonstrava seu compromisso com os mais pobres. Em 2001, durante a grave crise econômica da Argentina, ele convocou uma “oração pela pátria” e pediu aos fiéis que se unissem por uma nação mais justa, pedindo políticas públicas inclusivas.
Ao longo dos anos, sua influência ultrapassou os limites do Vaticano. Francisco conquistou admiradores de diversas religiões — e até de quem não professa fé alguma — por sua defesa de uma economia humana, voltada para o cuidado com os mais vulneráveis.
Morte do Papa
A morte do Papa Francisco deixa uma lacuna na liderança moral e espiritual do século XXI, mas seu legado permanece vivo em movimentos, comunidades e políticas que buscam uma economia mais justa. Sua crítica à “economia que mata” não é apenas uma metáfora: é um alerta sobre os rumos que o sistema global pode tomar se não forem colocadas as pessoas, e não o lucro, no centro das decisões.
Em um mundo onde mais de 700 milhões de pessoas vivem na extrema pobreza, enquanto cerca de 2.700 bilionários acumulam juntos mais de R$ 70 trilhões, a mensagem de Francisco continua urgente — e necessária.
Leia também: A doença que matou o Papa dos Pobres, e o Vaticano que rumos tomará?


