No momento atual de intensa agitação política e econômica, marcado pela reconfiguração das alianças globais, perder tempo significa perder dinheiro. O Brasil precisa agir com pragmatismo e rapidez. Há um movimento claro de fragilização das parcerias tradicionais, enquanto países e blocos econômicos buscam ampliar horizontes, disputam novos espaços, assinam acordos e posicionam suas marcas no cenário internacional.
Não se trata apenas de proteger o que já foi conquistado, mas de ativar, com urgência, novas frentes de comércio com países que, de fato, compram do Brasil, investem no Brasil e geram empregos aqui. A região do Conselho de Cooperação do Golfo (GCC) — que reúne Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Catar, Omã, Kuwait e Bahrein — é um desses destinos estratégicos.

Um mercado bilionário ainda pouco explorado
Com um PIB combinado superior a US$ 2,5 trilhões e população acima de 60 milhões de pessoas, o GCC não é apenas promissor: é prioritário. Trata-se de um mercado com apetite real por soluções em alimentos, energia, saúde, educação, infraestrutura e inovação — e cada vez mais aberto à presença internacional.
Enquanto Turquia, Índia, Coreia do Sul e até vizinhos sul-americanos já ocupam esse espaço com acordos bilaterais robustos, delegações expressivas em feiras e estratégias agressivas de exportação, empresas brasileiras ainda hesitam em agir.
Em 2023, o Brasil exportou cerca de US$ 9 bilhões para os países do GCC. Em 2024, as projeções indicavam crescimento, com estimativas entre US$ 10 e 12 bilhões. Ainda assim, o volume é tímido frente ao potencial do mercado. Para uma região que importa alimentos, tecnologia e serviços de alto valor agregado, o Brasil segue subexplorado como fornecedor confiável. A oportunidade existe — falta transformá-la em ação concreta.
Agro é destaque, mas o potencial vai além
O agronegócio lidera as exportações brasileiras para o GCC — carnes, grãos, frutas e açúcar —, seguido por produtos químicos, calçados e maquinário. Mas o país pode — e deve — ir além. Projetos de energia renovável, como o hidrogênio verde no Piauí, são exemplos de iniciativas com potencial bilateral. Replicar iniciativas como essa em parceria com o Golfo pode posicionar o Brasil como referência na transição energética, um de seus maiores ativos internacionais.
A cada US$ 1 bilhão adicional exportado, estima-se a criação de cerca de 24 mil empregos diretos e indiretos no país. Se o Brasil dobrasse sua presença comercial no GCC, o impacto poderia superar 250 mil empregos nos próximos anos. Não há política social mais eficaz do que renda estável, salários em dia e carteira assinada.
Marca Brasil precisa ser vendida
A marca Brasil carrega atributos valiosos: criatividade, diversidade produtiva, sustentabilidade e capacidade de entrega. Mas, para render frutos, precisa ser visível, comunicada e vendida. Também é fundamental superar a barreira cultural — e por vezes estereotipada — que ainda impede parte do empresariado brasileiro de enxergar o Oriente Médio como mercado viável e acessível.
Hoje, a atuação das missões comerciais brasileiras ainda é tímida. ApexBrasil, Itamaraty e demais órgãos de promoção externa precisam de metas claras, calendário definido e decisão política para fortalecer a presença no Golfo.
Não se trata de abrir mão do multilateralismo, mas de redirecionar prioridades. O GCC é um destino-chave. Ignorá-lo é desperdiçar uma das oportunidades mais concretas de transformar discursos em resultados, acordos em empregos e potencial em realidade para o Brasil.


