O Brics não é um bloco econômico. É uma coalizão de cooperação que nasceu com cinco países e hoje reúne dez: Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Egito, Etiópia, Irã, Emirados Árabes Unidos e Indonésia. Juntos, esses países concentram mais de 40% da população mundial e respondem por cerca de 40% do PIB (Produto Interno Bruto) global, em paridade de poder de compra.
Neste ano, com o Brasil na presidência rotativa do grupo, o país atravessa um momento raro — e estratégico. O desafio é claro: transformar legitimidade diplomática em resultados concretos. Ou seja, fazer com que essa liderança internacional reverbere na vida real do brasileiro — com mais empregos, inclusão e renda.

Apesar das ausências de alguns chefes de Estado e das tensões geopolíticas, o potencial do Brics não pode ser subestimado. O grupo concentra entre 40% e 45% da produção mundial de petróleo, mais de 70% das reservas conhecidas de minerais de terras raras e algo entre 30% e 36% da produção global de gás natural. Esses recursos, se bem aproveitados, podem impulsionar uma nova etapa de crescimento sustentável — com ganhos reais para as populações dos países-membros.
Uma transição verde com rosto brasileiro
Enquanto o G7 (Grupo dos Sete países mais industrializados do mundo, composto por Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão e Reino Unido) assume uma responsabilidade histórica ao promover a transição verde por meio de regulações e incentivos financeiros, os Brics — que respondem por 45,8% das emissões globais — defendem uma mudança justa e gradual, com metas de neutralidade climática pós-2050, priorizando o crescimento econômico.
Nesse contexto, China e Índia se consolidam como atores indispensáveis para qualquer acordo climático duradouro, tornando a governança ambiental um novo campo de disputa por legitimidade e liderança global.
É nesse cenário complexo que o Brasil se destaca. Falar de paz, energia limpa e segurança alimentar sem mencionar o país é simplesmente impossível. Poucos têm a credibilidade para articular soluções que respeitem os interesses dos demais sem abrir mão dos próprios. Isso decorre de uma diplomacia historicamente independente — que urgentemente precisa continuar a sê-lo — e do vigor do nosso setor produtivo, especialmente na bioenergia e na agricultura sustentável.
O Brasil tem a responsabilidade e o protagonismo de articular, dentro do BRICS, os atores mais relevantes da transição energética, ampliando o debate para os demais setores e países do grupo. Mas, mais do que discursos, esse protagonismo precisa se traduzir em benefícios concretos para o cidadão brasileiro e para as populações dos demais membros. Essa é a verdadeira missão: fazer com que o que foi construído e acordado no âmbito internacional gere emprego, renda e inclusão social.
De acordos multilaterais a políticas públicas
A transição verde já é uma realidade e vem criando oportunidades em inovação, veículos elétricos, agricultura familiar e de baixo impacto ambiental, além de gerar renda para diferentes segmentos da população. Contudo, é necessário ampliar esse movimento por meio de políticas públicas que conectem os acordos globais às demandas reais da sociedade.
Sim, o Brics é heterogêneo. Existem divergências, a governança ainda é incipiente e a coesão institucional está em desenvolvimento. Ainda assim, é inegável que se constrói aqui uma nova arquitetura de poder. Entre todos os membros, o Brasil é quem mais carrega a tradição e a vocação para a cooperação multilateral — uma construção histórica do Estado brasileiro que atravessa diferentes governos. Isso significa capacidade de escuta, articulação e liderança sem imposição, cultivada ao longo do tempo como marca registrada da diplomacia nacional.
O momento exige mais do que boas intenções. São necessárias ações coordenadas, visão estratégica e, sobretudo, foco no impacto real. O protagonismo do Brasil só se justifica se fizer diferença concreta na vida das pessoas. Esse compromisso deve guiar cada passo daqui para frente.


