A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) apresentou seu posicionamento oficial para a Conferência do Clima das Nações Unidas (COP 30), que será realizada de 10 a 21 de novembro em Belém (PA). O documento defende que a agropecuária brasileira deve ser reconhecida como parte da solução climática global, destacando práticas como integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF) e a recuperação de pastagens degradadas.
A CNA ressalta que a agricultura tropical tem particularidades que exigem métricas próprias para avaliação em acordos internacionais. A entidade argumenta que a produção brasileira já incorpora técnicas sustentáveis que precisam ser reconhecidas e recompensadas.
Leia também: China compra soja da Argentina após suspensão de imposto, e EUA perdem espaço no mercado

O pedido de financiamento para o agro
O ponto central do posicionamento é a questão do financiamento climático. A CNA aponta que o setor precisa de acesso facilitado a recursos previstos no Roadmap Baku-Belém (plano para mobilizar trilhões de dólares em financiamento climático para países em desenvolvimento até 2035), que busca mobilizar cerca de US$ 1,3 trilhão, o equivalente a aproximadamente R$ 7,2 trilhões pela cotação atual do dólar (R$ 5,54 em setembro de 2025, segundo Banco Central).
A proposta inclui criação de linhas de crédito específicas para projetos de mitigação de emissões e adaptação às mudanças climáticas. Também defende juros mais baixos, prazos alongados e a possibilidade de o produtor acessar o mercado de carbono, de acordo com as regras do Artigo 6º do Acordo de Paris, o tratado internacional adotado em 2015 para combater as alterações climáticas
O papel da Caixa e de outros agentes de crédito
Além da busca por recursos internacionais, o documento sugere a criação de mecanismos internos para que produtores rurais brasileiros possam acessar crédito de maneira mais rápida e segura. A CNA cita como exemplo a necessidade de um programa de regularização fundiária na Amazônia, que daria a milhares de produtores acesso formal a linhas de financiamento.
Segundo Roberto Rodrigues, professor da FGV e enviado especial para a COP 30, a ausência de títulos de terra impede que agricultores tenham crédito rural, o que aumenta a vulnerabilidade social e o risco de desmatamento ilegal.
Oito eixos estratégicos do posicionamento
O documento entregue pela CNA apresenta oito eixos considerados prioritários:
- Criação de métricas adaptadas à agricultura tropical.
- Mobilização de R$ 7,2 trilhões em financiamento climático global.
- Reforço da segurança alimentar dentro do debate climático.
- Inclusão da agropecuária nos resultados do Global Stocktake (GST), avaliação periódica do Acordo de Paris.
- Políticas de incentivo e recompensa para produtores que adotam práticas sustentáveis.
- Adaptação climática com indicadores adequados às realidades nacionais.
- Regras claras para o mercado de carbono e valorização de créditos rurais.
- Apoio ao desenvolvimento econômico e social da Amazônia com regularização fundiária e crédito específico.
Ciência como aliada na COP 30
A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) também terá protagonismo na conferência. A presidente da instituição, Sílvia Massruhá, anunciou a criação da Casa da Agricultura Sustentável Brasileira em Belém. O espaço reunirá mais de 200 tecnologias voltadas à redução de emissões e aumento da produtividade com baixo impacto ambiental.
Entre os projetos estão a expansão dos sistemas agroflorestais e a recuperação de 40 milhões de hectares de pastagens em estado médio ou severo de degradação. Essa conversão, segundo a Embrapa, pode aumentar a produção de alimentos sem necessidade de novos desmatamentos.
O agro brasileiro como solução climática
O posicionamento da CNA destaca que o agronegócio de baixo carbono já contribui para metas nacionais e internacionais de redução de emissões. O Plano ABC+ e a Agenda Nacional de Biocombustíveis foram apresentados como exemplos de políticas públicas que integram produção e sustentabilidade.
Durante o evento de lançamento do documento, realizado em Brasília, o presidente da CNA, João Martins, afirmou que irregularidades no setor estão ligadas à ilegalidade, e não à produção regular. A entidade reforçou que os produtores precisam de condições para acessar crédito e financiamento, em vez de serem responsabilizados por práticas ilegais.
*Entrevistas concedidas a Forbes.