A 30ª Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas (COP30), marcada para Belém, cidade brasileira do estado do Pará, em novembro de 2025, ganha novos contornos após a falta de consenso entre os países-membros da Organização Marítima Internacional (IMO) sobre as metas de emissões líquidas zero no transporte marítimo.
O adiamento da decisão sobre o Marco Net-Zero, ocorrido em 17 de outubro, aconteceu após forte oposição dos Estados Unidos ao que chamaram de “imposto global sobre o carbono”. A proposta, apresentada em abril, previa um padrão global de combustível e um mecanismo de precificação de emissões a serem implementados a partir de 2027.
Segundo o Broadcast, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado, a indefinição abriu margem para o Brasil reforçar sua posição como fornecedor estratégico de biocombustíveis — uma alternativa já utilizada em escala doméstica e considerada compatível com os motores navais atuais.
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O papel dos biocombustíveis na navegação
Os biocombustíveis, como o etanol e o biodiesel, são classificados como “drop-in”, o que significa que podem substituir o combustível fóssil sem a necessidade de adaptação complexa de motores. Essa característica os coloca como uma solução viável para descarbonizar o transporte marítimo, setor responsável por cerca de 3% das emissões globais de gases de efeito estufa, segundo a IMO.
Camilo Adas, diretor de Transição Energética da Be8 — empresa líder no mercado de biodiesel — explica ao InfoMoney que “a IMO sofre influências geopolíticas claras, com a Europa moldando regulações e apresentando entraves à adoção dos biocombustíveis de primeira geração”. Para ele, o Brasil deve usar a COP30 como palco para demonstrar que o modelo nacional pode conciliar produção energética e segurança alimentar.
Um estudo da professora Glaucia Mendes Souza, da Universidade de São Paulo (USP), e coordenadora da Força-Tarefa de Descarbonização de Biocombustíveis para Transportes da Agência Internacional de Energia (AIE), reforça que o cultivo de matérias-primas para biodiesel pode ocorrer em áreas degradadas, sem competir com a produção de alimentos.
Impacto econômico e potencial de investimentos
Relatório da consultoria Boston Consulting Group (BCG) aponta que o Brasil tem capacidade para atender até 15% da demanda global de biocombustíveis para navegação, o que poderia evitar a emissão de cerca de 170 milhões de toneladas de dióxido de carbono (CO₂) por ano. Esse potencial é avaliado em cerca de US$ 90 bilhões, equivalentes a R$ 520 bilhões, em investimentos até o final da próxima década.
Nilton Mattos, sócio de Infraestrutura e Energia do escritório Mattos Filho, observa ao InfoMoney que o modelo híbrido proposto pela IMO — que combina eficiência da frota e precificação de emissões — pode favorecer países que já desenvolvem tecnologias limpas. “A variável de intensidade de carbono é útil porque incentiva navios mais eficientes e abre oportunidades para biocombustíveis competitivos como o etanol brasileiro”, afirma.
A Empresa de Pesquisa Energética (EPE), vinculada ao Ministério de Minas e Energia, também destaca a importância de políticas públicas de incentivo para que a transição ocorra de forma estruturada. Em nota técnica recente, a EPE aponta que regimes de subvenção e investimento em infraestrutura portuária serão essenciais para a adoção de combustíveis sustentáveis no transporte aquaviário.
Desafios logísticos e de infraestrutura
Apesar do potencial reconhecido, especialistas alertam que o sucesso da transição depende de uma rede internacional de abastecimento. “Não adianta ofertar biocombustíveis apenas no Brasil se não houver onde reabastecer na China, principal destino das exportações brasileiras”, ressalta Mattos.
A adaptação de motores a metanol compatíveis com etanol e a modernização de portos são desafios técnicos e financeiros que devem se intensificar até 2027, prazo previsto para início das metas da IMO. Segundo dados da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq), apenas 18% dos portos brasileiros têm infraestrutura adaptada para combustíveis alternativos.
Expectativas para a COP30
Com a COP30 se aproximando, o Brasil pretende usar o evento como vitrine para sua política de biocombustíveis e bioenergia. Além de reforçar compromissos ambientais, o país busca atrair investimentos e demonstrar a viabilidade econômica de um modelo de navegação mais limpa.
A discussão sobre combustíveis sustentáveis para o transporte marítimo permanece no centro das negociações internacionais e deve seguir como tema prioritário na agenda climática global ao longo de 2026.