A COP30, a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, terminou no sábado, 22 de novembro, em Belém, depois de duas semanas marcadas por negociações tensas, protestos dentro e fora dos pavilhões, disputas políticas e até um incêndio que forçou a evacuação da área oficial.
Apesar das dificuldades, os países aprovaram um acordo final que destravou temas importantes de adaptação climática e financiamento para nações vulneráveis. Ainda assim, a inclusão de uma orientação clara para reduzir o uso de combustíveis fósseis, que era o ponto mais aguardado, ficou de fora do texto, frustrando países e especialistas que enxergam nessas fontes de energia o principal motor do aquecimento global.

E, embora delegações tenham criticado a falta de ambição em alguns pontos, a #COP30 abriu uma etapa inédita no regime climático ao colocar a implementação como foco, após três décadas em que o processo foi dominado pela negociação de textos e declarações.
Uma COP na Amazônia e o desafio de explicar por que isso importa
A COP é a reunião mais importante do mundo sobre clima. É nela que 195 países avaliam como reduzir emissões, como financiar a transição energética e como preparar cidades e populações para enchentes, secas, ondas de calor e perdas ambientais que já acontecem em ritmo acelerado.
Realizar esse encontro no coração da Amazônia teve um peso simbólico e prático, já que a floresta funciona como uma espécie de “ar-condicionado natural” do planeta, influencia chuvas no Brasil inteiro e ajuda a regular a temperatura global. Colocar a COP dentro dela deixou claro que qualquer acordo climático relevante precisa passar pela proteção de florestas tropicais e pelos povos que vivem nesses territórios.
Belém também aproximou das negociações grupos que geralmente ficam de fora: ribeirinhos, agricultores, indígenas, moradores de periferias, famílias afetadas por enchentes e estudantes que foram à Green Zone para entender o debate climático. O evento recebeu mais de 513 mil visitantes somando Blue e Green Zones, um recorde que contribuiu para transformar a COP30 em um ambiente mais plural e mais pressionado pelas ruas.
Isso não impediu que a logística fosse um dos principais desafios. Alguns pavilhões ficaram prontos na véspera da abertura, banheiros ficaram sem água, filas se formaram em horários de pico e um curto-circuito provocou um incêndio que cancelou atividades em um dos dias.
O primeiro ato: protestos, críticas e tensão crescente
Já no início, a COP30 enfrentou protestos, sendo um dos principais o dos povos Munduruku, que bloquearam a entrada da área oficial para denunciar projetos de infraestrutura na Amazônia e cobrar demarcação de terras. Depois desse ato, vieram outros: manifestações por justiça climática, atos de juventudes, pressões por transição energética, marchas contra desmatamento e mobilizações dentro dos pavilhões pedindo metas mais claras para adaptação.

A Organização das Nações Unidas (ONU) chegou a enviar uma carta ao governo brasileiro pedindo reforço imediato de segurança e cobrando respostas para falhas na estrutura, como entre elas alagamentos, excesso de calor e problemas elétricos. A presença da Força Nacional, do Exército, da Polícia Federal e da Polícia Militar aumentou nos dias seguintes, e o acesso à Blue Zone passou a ter controles mais rígidos.
A recepção a esses protestos também teve um efeito político, obrigando negociadores a reconhecerem que decisões tomadas a portas fechadas não seriam suficientes para dar legitimidade à COP30.
A primeira semana: negociações aceleradas, discursos fortes e disputas em torno da agenda
Ao contrário das últimas quatro conferências, que começaram emperradas por falta de consenso, Belém conseguiu aprovar a agenda logo no primeiro dia. Isso só foi possível porque o presidente da COP30, André Corrêa do Lago, decidiu adotar uma estratégia de “ritmo duplo”: seguir com 145 pontos consensuais enquanto negociava separadamente os quatro itens mais sensíveis.
Esse movimento evitou o atraso típico das COPs e permitiu que temas técnicos avançassem rapidamente. Pelo menos vinte desses itens envolviam divergências entre países ricos e nações em desenvolvimento, principalmente sobre financiamento, regras de transparência e comércio internacional.
A primeira semana também foi marcada por falas que mexeram com os bastidores. Embora fora da agenda oficial, o presidente Lula defendeu abertamente a construção de um roteiro global para reduzir a dependência de combustíveis fósseis. A proposta ganhou apoio informal de Alemanha, Reino Unido e outros países que, segundo suas delegações, acompanhariam o Brasil caso surgisse um documento estruturado.
Ao mesmo tempo, discussões sobre financiamento dominaram encontros paralelos. O compromisso de US$ 100 bilhões (cerca de R$ 540 bilhões) por ano para países em desenvolvimento voltou ao centro das conversas. Agora, com cálculos atualizados, o valor necessário para financiar adaptação e mitigação pode chegar a US$ 1,3 trilhão anuais (aproximadamente R$ 7,48 trilhões). O relatório “De Baku a Belém”, escrito por Azerbaijão e Brasil, organizou alternativas, mas não resolveu o impasse.
Enquanto isso, as quatro questões mais difíceis ficaram sem consenso: quanto dinheiro os países desenvolvidos devem colocar no financiamento climático; como elevar a ambição das metas nacionais (NDCs); como medir o cumprimento dessas metas; e como lidar com medidas comerciais unilaterais, como regras da União Europeia sobre importação de produtos ligados ao desmatamento.
A segunda semana: pressão política, ambiente instável e negociações que avançavam e recuavam
A chegada de ministros transformou a COP30 e os discursos deixaram o tom técnico e passaram a tocar em disputas mais diretas. O secretário-geral da UNFCCC, Simon Stiell, alertou que atrasos artificiais poderiam comprometer toda a conferência. A presidente da Assembleia Geral da ONU, Annalena Baerbock, destacou que as energias renováveis cresceram muito nos últimos anos, mas que esse avanço não seria suficiente sem decisões políticas mais claras.

A transição energética virou o assunto dominante. Relatórios apresentaram números impressionantes: 90% da nova capacidade instalada de energia em 2024 veio de fontes limpas, e mais de US$ 2,2 trilhões (cerca de R$ 11,9 trilhões) foram mobilizados globalmente para energia renovável. O Brasil aproveitou para destacar iniciativas próprias, como o “Belém 4x”, que reúne 25 países e instituições interessados em quadruplicar o uso de combustíveis sustentáveis até 2035.
Para organizar os temas mais difíceis, a presidência propôs negociar tudo como um único pacote. Países poderiam trocar concessões: aumentar metas, por exemplo, mas com garantias de financiamento; aceitar regras de transparência mais rigorosas, mas com prazos ajustados. Pela primeira vez em anos, houve algum otimismo de que essa abordagem poderia destravar o processo.
No entanto, a tensão também crescia. Um temporal deixou trechos entre pavilhões alagados, obrigando a evacuação temporária por risco elétrico. Atos por uma transição justa pressionavam líderes dentro da Blue Zone. Cientistas fizeram um manifesto pedindo um roteiro claro para eliminar combustíveis fósseis e alertaram para riscos de colapso de ecossistemas como a Amazônia e os recifes de coral. Organizações civis criticaram retrocessos em metas internacionais e concederam o prêmio “Fóssil do Dia” à Nova Zelândia por recuar em compromissos sobre metano.
O momento de maior tensão: plenária suspensa, acusações e risco de colapso das negociações
A plenária final teve debates acalorados com Colômbia, Panamá, Uruguai e Argentina, que alegaram que tinham pedido a palavra para registrar objeções antes do martelo final, mas não foram ouvidos. O tema em disputa era a ausência de referências aos combustíveis fósseis e a falta de clareza nos compromissos de adaptação.
A sessão foi suspensa e os delegados correram para salas de consulta. A Rússia atacou os países latino-americanos dizendo que eles “se comportavam como crianças”, gerando forte reação. A Argentina rebateu dizendo que estava ali para defender milhões de pessoas. O Panamá ironizou afirmando que, se fosse para agir como crianças, talvez fosse melhor, porque “crianças são visionárias”.
Quando a plenária voltou, Corrêa do Lago reconheceu que houve falha de comunicação, pediu desculpas e anunciou que as decisões já aprovadas continuavam válidas.
Mas essa turbulência expôs uma fragilidade maior: o modelo de consenso da COP permite que um único país bloqueie avanços considerados essenciais por dezenas de outros.
O que avançou: adaptação, financiamento, transição justa e vida real no centro das decisões
Mesmo com obstáculos, a COP30 conseguiu entregar avanços. O mais relevante foi a aprovação de 59 indicadores globais de adaptação, que servirão como referência para medir como cada país está se preparando para eventos extremos. É um passo importante para reduzir a desigualdade entre nações que já possuem sistemas de alerta e infraestrutura e outras que ainda lidam com riscos básicos.
Outra conquista foi o compromisso de triplicar o financiamento para adaptação até 2035. Em valor aproximado, isso pode chegar a US$ 120 bilhões (cerca de R$ 620 bilhões). O texto reconhece que o dinheiro deve vir principalmente de recursos públicos e que países vulneráveis precisam de acesso simplificado.
A COP30 também adotou um mecanismo de transição justa, que coloca trabalhadores e comunidades no centro da mudança para uma economia de baixo carbono. Isso inclui apoio técnico, cooperação internacional, capacitação e proteção social para quem pode perder renda com o fim de atividades poluentes.
Além disso, a conferência trouxe iniciativas diretamente ligadas à vida das pessoas. Entre elas, o Plano de Saúde de Belém, apoiado por US$ 300 milhões (cerca de R$ 1,62 bilhão), para fortalecer sistemas de saúde preparados para ondas de calor, enchentes, doenças transmitidas por mosquitos e outras consequências da crise climática.
Programas sobre agricultura sustentável, restauração de solos, segurança alimentar, educação climática e empregos verdes foram lançados paralelamente, reforçando a mensagem de que enfrentamento da crise climática não é apenas assunto de governos, mas parte da rotina das pessoas.
Um marco: a primeira COP carbono zero da história
Um dos feitos mais celebrados foi a neutralização das emissões. A COP30 compensou 130 mil toneladas de CO₂, o equivalente a toda a operação do evento.

O Brasil tratou esse resultado como parte do legado da “COP da Amazônia”, mostrando que é possível realizar grandes eventos internacionais com responsabilidade ambiental, rastreabilidade e transparência.
O que faltou: fósseis, metas mais fortes e compromissos com florestas
Apesar dos avanços, a COP30 deixou lacunas, já que o texto final não menciona combustíveis fósseis. O “mapa do caminho” defendido pelo Brasil e pela Colômbia foi retirado da decisão principal após objeções de grandes produtores de petróleo. Corrêa do Lago afirmou que produzirá o documento como iniciativa da presidência, mas isso não tem força vinculante.
Também houve frustração no capítulo das florestas. Esperava-se que Belém adotasse metas novas de proteção e restauração, mas o texto repetiu compromissos já existentes, sem trazer prazos adicionais ou mecanismos de cobrança.
Países vulneráveis criticaram ainda a falta de clareza sobre quem pagará as contas da adaptação e disseram que promessas genéricas não resolvem problemas urgentes.
Os momentos que definiram a COP30: pressões, falhas e mobilização histórica
A COP30 ficará marcada por episódios que ilustram tanto o tamanho do desafio quanto a energia mobilizada em torno do tema. A Marcha Climática de Belém reuniu dezenas de milhares de pessoas em um ato pacífico que cobrou justiça climática e proteção da Amazônia. A Green Zone recebeu quase 300 mil visitantes, um recorde absoluto.
O incêndio provocado por curto-circuito expôs riscos da infraestrutura emergencial. Alagamentos e calor extremo testaram os limites da organização. A tentativa de invasão de um dos acessos por manifestantes indígenas levou à presença reforçada de militares e policiais. Ao mesmo tempo, a presença de mais de 900 representantes indígenas na área oficial da ONU foi um marco histórico.
O que vem agora: uma década para provar que promessas podem virar realidade
A presidência da COP30 afirmou que Belém não deve ser vista como o fim de um ciclo, mas como o início de uma década de mudança. O Brasil segue no comando até novembro de 2026 e se comprometeu a entregar dois roteiros: um para zerar o desmatamento e outro para orientar a transição para longe dos combustíveis fósseis.
A próxima COP, em 2026, será realizada na Turquia. Em 2027, será a vez da Etiópia. Entre uma e outra, os países terão de decidir se transformarão compromissos vagos em políticas concretas.


