O quarto dia da COP30, nesta quinta-feira, 13 de novembro, foi um dos mais movimentados desde o início da conferência em Belém, no Pará. O evento reuniu alertas da ONU (Organização das Nações Unidas), protestos dentro e fora dos pavilhões, anúncios científicos preocupantes e disputas entre países sobre temas que podem definir o futuro das negociações climáticas.

ONU pede correções urgentes após invasão e problemas estruturais
A Organização das Nações Unidas enviou uma carta ao governo brasileiro pedindo respostas rápidas para falhas de segurança e de infraestrutura identificadas durante a COP30. A pressão aumentou depois da tentativa de invasão ocorrida na terça-feira, 11 de novembro, quando cerca de 150 manifestantes entraram na zona azul, provocando feridos leves e danos em áreas internas.
O documento menciona brechas no controle de acesso, portas sem monitoramento e número menor de seguranças do que o necessário. A ONU também relatou reclamações de delegações sobre calor dentro dos pavilhões, falhas de ar-condicionado, goteiras e risco de água próxima a instalações elétricas. A entidade pediu transparência e um plano claro de correção para comunicar às equipes internacionais.
A Casa Civil afirmou que todas as solicitações da ONU estão sendo atendidas, informou que reforçou o policiamento com apoio da Força Nacional e da Polícia Federal, ampliou a área de segurança entre as zonas azul e verde e reparou os pontos com infiltração.
A PF abriu inquérito para investigar a invasão, e imagens de câmeras internas e externas serão analisadas. Para o presidente da COP30, André Corrêa do Lago, as preocupações já estariam superadas.
Protestos marcam o dia com críticas ao petróleo, agrotóxicos e atrasos nas negociações
Assim como nos outros dias, o clima de mobilização tomou conta da conferência. Pela manhã, movimentos sociais e povos indígenas protestaram dentro da zona azul contra a exploração de petróleo na Amazônia. As faixas pediam o fim das licenças para perfurações, e ativistas lembraram que grandes países concordaram há dois anos em iniciar a eliminação dos combustíveis fósseis.
Na Cúpula dos Povos, que acontece em paralelo ao evento da ONU, uma instalação inflável de 12 metros em formato de garrafa de agrotóxico chamou atenção. A obra criticou os chamados pesticidas altamente perigosos e relacionou o uso dessas substâncias ao agravamento da crise climática.
Houve também um protesto menor pedindo mais recursos internacionais para adaptação climática — tema que o Brasil define como prioridade, mas que enfrenta dificuldades nas negociações.
“Fóssil do Dia” vai para o Japão em clima de circo e humor crítico
Perto do fim da tarde, o tradicional e bem-humorado “Fóssil do Dia” reuniu dezenas de pessoas na zona azul. No palco improvisado, integrantes da Climate Action Network apareceram fantasiados de esqueleto e dinossauro inflável para anunciar quem, na opinião das organizações da sociedade civil, “fez mais para impedir o avanço climático”.
O “premiado” da vez foi o Japão. Segundo o grupo, o país continua defendendo soluções que seriam apenas “cortinas de fumaça”, como a captura e armazenamento de carbono, sem enfrentar diretamente a redução dos combustíveis fósseis. Na véspera, o Reino Unido havia sido criticado por resistir à criação de um mecanismo global de transição justa.
Além das críticas, a ação também costuma reconhecer quem apresentou avanços, por meio do “Raio do Dia”. Um dos premiados foi o G77 + China, destaque por defender uma proposta forte de transição justa.
Cientistas alertam: emissões globais devem subir novamente em 2025
A divulgação científica mais aguardada do dia veio da Universidade de Exeter, responsável pela Estimativa Global de Carbono. Os pesquisadores informaram que as emissões globais vindas do uso de combustíveis fósseis devem crescer 1,1% em 2025, chegando ao maior nível já registrado.
O relatório também afirma que o “orçamento de carbono”, um limite de gases que ainda podem ser emitidos antes que o planeta ultrapasse 1,5 °C de aquecimento, está praticamente esgotado. Pelas contas do estudo, se as emissões de 2025 se repetirem nos próximos anos, esse limite ambiental pode acabar antes de 2030.
Brasil anuncia plano de adaptação da saúde com apoio de 40 países
O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, destacou que o plano brasileiro para adaptar o sistema de saúde aos impactos climáticos já recebeu 80 declarações de apoio, sendo cerca de 40 de países e o restante de instituições e organizações civis. A iniciativa quer preparar hospitais e profissionais para lidar com efeitos como ondas de calor, enchentes, queimadas, doenças infecciosas e eventos extremos.

Negociações têm ritmo desigual: adaptação trava, transição justa avança
As conversas entre países tiveram resultados mistos. A meta global de adaptação (GGA), considerada a decisão mais importante desta COP para o Brasil, enfrentou resistência. Delegações africanas defenderam que a adoção dos indicadores seja adiada para a COP32, em 2027, o que frustrou quem defendia avançar ainda nesta semana.
Por outro lado, o tema da transição justa ganhou mais força. China e um grupo de 77 países apoiam a criação de um mecanismo que garanta que a mudança para energias limpas seja feita sem prejudicar trabalhadores e comunidades vulneráveis. Para acelerar o andamento dos temas, a organização ampliou o horário das negociações, que agora podem seguir até 21h na quinta e na sexta.
Secretaria do Meio Ambiente e Clima mantém agenda intensa
A Secretaria do Meio Ambiente e Clima participou de uma programação diversa durante o dia, com atividades voltadas à bioeconomia, empresas verdes e governança climática. Pela manhã, esteve presente em um encontro sobre negócios sustentáveis na região amazônica e, à tarde, em uma discussão sobre a união entre setor público, privado e sociedade civil para acelerar ações climáticas. A secretaria também acompanhou reuniões da UNFCCC e manteve diálogo com delegações internacionais.
Outros destaques do dia
– A diretora da COP30, Ana Toni, informou que já foram registradas 114 metas climáticas enviadas pelos países.
– A delegação da China reduziu em 40% o número de representantes em relação ao ano anterior; a União Europeia diminuiu em 46%.
– O Instituto Igarapé lançou uma plataforma que avalia risco e oportunidade para investimentos verdes nos 5.570 municípios brasileiros, com base em 70 indicadores.


