As recorrentes quedas de energia, especialmente durante tempestades, geram uma pergunta comum: por que o Brasil não enterra seus fios elétricos?

Com milhões de brasileiros enfrentando apagões devido a ventos fortes e chuvas, como o recente ocorrido em São Paulo, a solução poderia estar na instalação de redes subterrâneas. Apesar disso, a realidade mostra que o país tem menos de 1% de sua rede elétrica enterrada. Mas por que essa infraestrutura permanece tão limitada no Brasil?
Os impactos das tempestades e os apagões recorrentes
Neste mês de outubro, durante a última semana, a população foi surpreendida com ventos de mais de 100 km/h e fortes chuvas em São Paulo, que deixaram mais de 2,1 milhões de pessoas sem energia, com algumas regiões enfrentando até quatro dias de apagão.
Esse cenário não é incomum na maior cidade do Brasil. Em menos de um ano, eventos similares ocorreram, sempre com danos à rede elétrica aérea. Especialistas atribuem essas falhas à queda de árvores, que ao atingir os fios, causam curtos-circuitos. A solução para reduzir esses problemas seria enterrar os cabos, protegendo-os contra as intempéries.
A realidade das redes subterrâneas no Brasil
Embora seja uma solução frequentemente discutida, a implementação de redes subterrâneas no Brasil avança a passos lentos. Na cidade de São Paulo, apenas 40 km de fios foram enterrados, de acordo com dados de 2024.
Em comparação, o projeto original da prefeitura previa o enterramento de 65 km, ainda longe de ser concluído. No país todo, menos de 1% da rede elétrica é subterrânea, com cidades como Rio de Janeiro e Belo Horizonte atingindo apenas 11% e 2%, respectivamente.
No cenário internacional, a realidade é diferente. Cidades como Paris e Londres já possuem redes quase inteiramente subterrâneas, com projetos que remontam ao início do século XX. Em Nova York, por exemplo, 71% dos cabos elétricos já estão enterrados. Mas, por que o Brasil ainda não adotou esse modelo de forma ampla?
O custo como principal barreira
O fator econômico é apontado como o maior obstáculo. Segundo especialistas, enterrar fios pode custar de cinco a dez vezes mais do que manter a rede aérea. Além disso, a implementação exige obras complexas e demoradas que impactam o tráfego urbano e exigem uma logística cuidadosa. Essas obras envolvem a criação de túneis subterrâneos ou a abertura de valas em vias movimentadas, o que pode causar transtornos significativos.
Michele Rodrigues, professora da Fundação Educacional Inaciana (FEI), explica que os materiais utilizados na rede subterrânea são mais caros, pois precisam ser resistentes à água e a outros elementos. Além disso, a manutenção dessas redes também é mais complexa e demanda maior mão de obra.
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“Enquanto a manutenção de um poste aéreo requer dois funcionários, a rede subterrânea pode necessitar de pelo menos três, com a certificação adequada para operar em espaços confinados”, afirma Rodrigues.
Benefícios que compensam os desafios
Apesar dos custos, os especialistas defendem que o enterramento dos fios é um investimento que se paga a longo prazo. A principal vantagem é a proteção contra eventos climáticos extremos, como chuvas e ventos fortes, que são as causas frequentes de apagões no Brasil. Além disso, a remoção dos cabos aéreos contribui para a segurança das cidades, evitando quedas de raios, e melhora o aspecto visual das áreas urbanas.
Edval Delbone, professor do Instituto Mauá de Tecnologia, argumenta que o prejuízo causado pelos apagões para a sociedade e para as indústrias é muito elevado. Segundo ele, “ficar três ou quatro dias sem energia é prejudicial para qualquer residência, mas para grandes indústrias, os prejuízos podem chegar a milhões de reais ou dólares.”
A transição para redes subterrâneas pode ser feita de forma gradual, priorizando áreas sensíveis como hospitais, escolas e órgãos públicos. No entanto, Rodrigues destaca que, no Brasil, essa mudança seria mais complexa devido ao tamanho das cidades e à falta de políticas públicas estruturadas. “Na Europa, as cidades são menores, o que facilita a implementação de projetos como esse. No Brasil, a dimensão territorial e urbana torna o processo mais caro e demorado”, afirma a professora.
Questões de responsabilidade e falta de planejamento
No Brasil, a responsabilidade pela instalação de redes subterrâneas é difusa, envolvendo o governo federal, concessionárias de energia e governos municipais. A advogada Ana Karina Souza, especialista em infraestrutura, explica que muitas vezes falta comunicação entre esses atores, o que dificulta a implementação de melhorias. Além disso, a ausência de políticas públicas claras sobre o enterramento dos fios impede que planos efetivos saiam do papel.
Enquanto isso, cidades ao redor do mundo continuam avançando em seus projetos de redes subterrâneas. Em Washington D.C., por exemplo, um projeto de US$ 1 bilhão foi lançado em 2012 para expandir a rede subterrânea, que já cobre metade da capital americana. Na América do Sul, Buenos Aires implementou uma lei que proíbe a instalação de novas redes aéreas, incentivando o uso de fiações subterrâneas.
O caminho para o Brasil
Apesar dos desafios, especialistas acreditam que o Brasil deve seguir o caminho de outras grandes cidades ao redor do mundo e começar a enterrar suas redes elétricas, ainda que de forma gradual. A médio e longo prazo, os benefícios superariam os custos iniciais, principalmente no que diz respeito à segurança energética e à proteção contra eventos climáticos extremos.
A viabilidade do projeto depende, em grande parte, de uma maior articulação entre governos e concessionárias, além de uma visão estratégica para minimizar custos e transtornos. O uso de estruturas existentes, como túneis de metrô ou sistemas de esgoto, pode ser uma solução para diminuir os custos de implementação. No entanto, é crucial que o governo federal adote uma política pública clara e que os setores envolvidos tenham diálogo contínuo para tirar os projetos do papel.


