A economia da Argentina deu sinais de recuperação no início de 2025. Segundo dados divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística e Censos (Indec) nesta segunda-feira, 23 de junho, o Produto Interno Bruto (PIB) do país cresceu 0,8% no primeiro trimestre de 2025 em relação ao trimestre imediatamente anterior, encerrando um período marcado por recessão.
Na comparação anual, ou seja, com o primeiro trimestre de 2024, o avanço foi ainda mais expressivo: 5,8%, o maior desde 2022. Esse resultado sinaliza uma reversão das perdas acumuladas no ano anterior e reacende as expectativas de uma retomada sustentada da atividade econômica argentina.

O impacto das medidas de Javier Milei no PIB
O presidente Javier Milei, que assumiu o governo com uma plataforma ultraliberal, tem adotado medidas rígidas de austeridade fiscal, com o objetivo de equilibrar as contas públicas e conter a inflação. Em publicação na rede social X, Milei comemorou o resultado como um resultado fantástico e rebateu críticas de veículos que destacaram o encolhimento dos gastos públicos.
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De fato, a recuperação vem após um ano difícil. A política de contenção de despesas, marcada por cortes em subsídios, gastos sociais e congelamento salarial no setor público, causou desaceleração nos primeiros meses de 2024. O país enfrentou um cenário de retração, agravado pela desvalorização do peso em dezembro de 2023, o que pressionou preços e aumentou o custo de vida.
Setores em destaque: exportações crescem, importações disparam
Um dos fatores que contribuiu para o crescimento do PIB no primeiro trimestre foi o desempenho do comércio exterior. Segundo o Ministério da Economia argentino, as exportações cresceram 7,2% no período, impulsionadas principalmente pelo agronegócio. O ministro Luis Caputo afirmou que esse é um recorde histórico para o primeiro trimestre em postagem nas redes sociais.
No entanto, as importações saltaram 42,8% no mesmo período, o que reduziu o impacto positivo da balança comercial no resultado final. A alta nas importações é reflexo da maior demanda interna por bens de capital e insumos industriais, impulsionada pela abertura gradual de setores produtivos e pela melhora da confiança empresarial.
Equilíbrio fiscal e tensões sociais
Apesar dos avanços econômicos, a política de Milei continua gerando tensões sociais. Os salários de servidores públicos continuam defasados em relação à inflação, o que afeta o consumo das famílias e gera protestos frequentes em Buenos Aires e outras grandes cidades. Em abril de 2025, o Índice de Preços ao Consumidor (IPC) acumulado em 12 meses foi de 278,3%, segundo dados do próprio Indec.
Mesmo com esse cenário, o governo vem sendo elogiado por estabilizar a situação fiscal do país. O déficit primário foi zerado no primeiro trimestre, e o Banco Central argentino reduziu gradualmente a emissão de moeda, o que colaborou para a desaceleração da inflação mensal, que caiu de 13,2% em janeiro para 8,8% em maio de 2025.
Expectativas para o restante do ano
A pesquisa de expectativas do mercado, publicada pelo Banco Central da Argentina no início de junho, projeta um crescimento de 5,2% no PIB em 2025, consolidando o país em trajetória positiva. A taxa, se confirmada, representará a maior expansão desde 2021 e poderá reforçar a credibilidade da equipe econômica de Milei.
Contudo, analistas alertam para a fragilidade da recuperação, que ainda depende de variáveis externas, como os preços das commodities e a estabilidade cambial. A manutenção da confiança dos investidores estrangeiros e a gestão do endividamento público também são fatores determinantes para o desempenho ao longo do ano.
O que isso representa para o Brasil?
O Brasil é o principal parceiro comercial da Argentina, especialmente nos setores automobilístico e de máquinas industriais. Com a retomada econômica no país vizinho, espera-se um aumento nas exportações brasileiras para o mercado argentino, o que pode beneficiar empresas nacionais.
Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, o Brasil exportou cerca de US$ 2,3 bilhões para a Argentina nos primeiros quatro meses de 2025, o equivalente a aproximadamente R$ 12,6 bilhões, considerando a cotação média do dólar de R$ 5,48 no período. Se a recuperação argentina se mantiver, a expectativa é de que esse valor cresça até o fim do ano.
O crescimento de 0,8% no PIB da Argentina no primeiro trimestre de 2025, com alta anual de 5,8%, mostra sinais de que o país pode estar saindo do ciclo recessivo que o afetou duramente em 2024. A combinação entre austeridade fiscal, melhora no comércio exterior e controle inflacionário começa a dar resultados. No entanto, o sucesso dessa trajetória dependerá da capacidade do governo em conciliar ajustes econômicos com estabilidade social e da continuidade de reformas estruturais.
A economia argentina está em uma encruzilhada: pode consolidar sua recuperação ou voltar à instabilidade, dependendo do equilíbrio entre política, sociedade e mercado.


