Dona Maria e seu Francisco não se falam mais. Vizinhos por quase duas décadas, compartilharam cafés, regaram as plantas um do outro e trocavam receitas de bolo como quem oferece afeto. Mas bastou uma conversa atravessada para o silêncio se instalar. Embora não haja muros entre as casas, parece que um foi erguido dentro do peito.
E não é só com eles. O Brasil anda assim: dividido, cauteloso, magoado. Tem gente que deixa de ir a almoços em família, que abandona grupos de mensagem ou atravessa a rua só para evitar quem pensa diferente. Mas será que tudo isso é apenas sobre política?
Talvez haja algo mais profundo: um ressentimento latente, que nunca foi totalmente curado. A sensação de injustiça vivida, de dor ignorada, de mérito negado. É como rever uma cena repetidamente sem conseguir seguir em frente. E, nesse ciclo, a felicidade vai perdendo espaço — porque ela exige leveza, curiosidade pelo outro, desejo de conexão.
A pesquisa do Instituto Quaest mostra que essa ferida está aberta: enquanto a maioria das pessoas negras, mulheres e moradores do Nordeste afirma ter melhorado de vida nas últimas décadas, muitos homens brancos e moradores do Sul dizem sentir estagnação. Até aí, um retrato das percepções. O mais delicado vem depois: grande parte dos que se dizem estagnados acredita que os outros “não mereciam” ter progredido. É aí que o ressentimento se impõe — não como revolta, mas como corrosão silenciosa das relações.


