O crescimento econômico do Brasil tem sido marcado por avanços pontuais e retrocessos desde a década de 1980. Segundo dados do Banco Mundial, desde o ano 2000 o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro cresceu em média 2,4% ao ano. O resultado fica bem abaixo de países como China (8,2%) e Índia (6,3%), e também inferior a vizinhos da América do Sul, como Chile (3,4%), Colômbia (3,6%) e Peru (4,1%).
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As consequências do desequilíbrio fiscal
O problema fiscal é apontado como um dos principais entraves. De acordo com Henrique Meirelles, ex-ministro da Fazenda e ex-presidente do Banco Central, o governo acumula gastos obrigatórios que limitam investimentos em setores estratégicos.
Ele defende reformas administrativas, tributárias e previdenciárias como medidas necessárias para frear o endividamento. Dados do Tesouro Nacional indicam que a dívida bruta do país já superava R$ 7,9 trilhões em junho de 2025, representando cerca de 76% do PIB.
Esse quadro resulta em juros elevados, já que o governo precisa oferecer retornos atrativos para financiar sua dívida. Marcos Lisboa, ex-presidente do Insper, instituição sem fins lucrativos dedicada ao ensino e à pesquisa, destaca que em momentos de controle fiscal as taxas de juros recuaram, mas o problema nunca foi solucionado de forma definitiva.
A industrialização e suas heranças
Entre as décadas de 1930 e 1980, o Brasil viveu um processo de industrialização que fortaleceu a economia. O governo Juscelino Kubitschek, com o Plano de Metas, consolidou a indústria nacional e impulsionou o crescimento. Entretanto, a estratégia baseada em endividamento deixou marcas duradouras. O chamado “milagre econômico”, que levou o país a crescer mais de 10% ao ano na década de 1970, foi seguido por forte endividamento externo e inflação nos anos 1980, considerados a “década perdida”.
Segundo Márcio Holland, professor da FGV (Fundação Getulio Vargas), a ausência de investimentos em tecnologia e inovação durante esse período comprometeu a competitividade brasileira. Enquanto países como Coreia do Sul, Taiwan e Singapura direcionaram recursos para a indústria de alta tecnologia, o Brasil permaneceu focado em setores de baixo valor agregado.
Educação: investimento alto, resultado baixo
O atraso educacional é outro ponto recorrente entre especialistas. De acordo com a UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), o Brasil destinou 5,5% do PIB para educação em 2021, percentual superior ao de países como Canadá (4,7%) e China (4%). Apesar disso, os resultados em avaliações internacionais ficam aquém. No Pisa de 2022, o Brasil ocupou a 65ª posição em matemática entre 81 países avaliados, atrás de Chile, Colômbia e México.
Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central, afirma que o problema não é apenas de recursos, mas de gestão e qualidade do ensino. Para ele, a carreira de professor precisa ser mais atrativa para que os melhores alunos se interessem pela formação docente.
Crises recorrentes e instabilidade política
Outro obstáculo são as sucessivas crises políticas e econômicas. Desde a redemocratização, o Brasil enfrentou dois impeachments presidenciais e diversos momentos de tensão entre Executivo e Legislativo. Segundo Marcos Lisboa, entre 1980 e 2020, o país acumulou 14 anos de crise econômica, contra 26 anos de crescimento moderado. Esse histórico contrasta com a estabilidade de outras nações emergentes.
Henrique Meirelles reforça que a indexação da economia, com contratos atrelados à inflação, aumenta a dificuldade de controlar os preços e exige juros altos. Desde 2014, o Brasil acumula déficit público primário em praticamente todos os anos, segundo o Tesouro Nacional.
O futuro e os desafios
A combinação de baixa produtividade, educação deficiente, crises fiscais recorrentes e instabilidade política forma um quadro complexo para o crescimento sustentado. Economistas defendem reformas estruturais e maior integração comercial como passos necessários para aumentar a competitividade. Armínio Fraga ressalta que o Brasil ainda enfrenta barreiras comerciais, em parte por depender fortemente do Mercosul, enquanto outras nações ampliaram seus acordos bilaterais.
*Entrevistas concedidas a CNN.


