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Chás e plantas medicinais: benefícios, fitoterapia e cuidados para a saúde

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Os chás estão bombando na Internet, tem para emagrecer, ajudar a ganhar massa muscular, dormir, dor de cabeça, de estômago, melhorar a textura da pele, aumentar o apetite sexual, e por aí vai.

Minha vontade é tomar um chá de sumiço, mas isso eu explico depois. O assunto chamou minha atenção e saí correndo atrás da veracidade dos fatos. É aquele ditado: “Mata a cobra e mostra o pau”. Que fique claro, ainda existe uma lacuna; não há experiências e análises que comprovem que os chás podem substituir tratamentos médicos.

Surfando na onda

O que é a mais pura verdade é que o mercado dos chás e infusões está em plena expansão no Brasil. Em sete anos, cresceu 25% (de 2013 a 2020), segundo pesquisa da Euromonitor (especialista em mercado de bens de consumo).

Chá: segunda bebida mais consumida no mundo, traz benefícios, mas não cura doenças | Foto: Reprodução/Canva
Chá: segunda bebida mais consumida no mundo, traz benefícios, mas não cura doenças | Foto: Reprodução/Canva

Aquecimento das vendas aqui e no mundo: a consultoria Technavio (que domina a área de tecnologia) estima que entre 2024 e 2028 haja uma expansão de US$ 1 bilhão no segmento de chá de frutas, com taxa anual de crescimento de 7,08%. Números que mantêm o chá no topo da lista das bebidas mais consumidas no mundo, ocupando o segundo lugar.

Os caminhos do chá

O chá surgiu na China há cinco mil anos. A bebida teria sido descoberta por acaso pelo imperador Sheng Nong, conhecido como Curandeiro Divido. Reza a lenda que o soberano descansava embaixo de uma árvore quando algumas folhas caíram na xícara com água quente. O sabor agradou, e os bons ventos levaram a tradição aos quatro cantos do planeta.

O chá nasce de plantas que contêm substâncias com propriedades medicinais em suas partes, como folhas, flores, raízes e cascas. A partir dessas plantas também são desenvolvidos os fitoterápicos, medicamentos disponíveis na forma de comprimidos, cápsulas, xaropes, cremes, entre outros, que passam por processo de industrialização com padronização. Esses comprovadamente têm efeito terapêutico.

Encontro com saberes

No meu caminhar, fui apresentada a Camilo Azarias, um jovem enfermeiro que é sacerdote no Candomblé de tradição Jeje e pesquisador na área das Ciências da Religião. Azarias trabalha para unir saúde, espiritualidade e saberes tradicionais, com um olhar especial para as Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS), especialmente no uso de plantas medicinais e outras terapêuticas realizadas nos terreiros.

“Essa valorização não apenas amplia o escopo das práticas integrativas, mas também representa um gesto reparatório, ao legitimar a cultura e a tecnologia desenvolvidas pelas populações afro-brasileiras”, foi logo me avisando.

Não basta plantar, é crucial saber o que está plantando e qual a serventia. Por isso, o enfermeiro defende o diálogo permanente com os profissionais de saúde sobre os saberes e tecnologias desenvolvidos nas comunidades afro-diaspóricas: “Reconhecer tais práticas como parte do escopo das Práticas Integrativas e Complementares em Saúde é um passo necessário para a efetiva inclusão da diversidade epistemológica brasileira nas políticas públicas”, conclui.

Com a mão na massa, ou melhor, na terra

Em um terreno com 1.200 m², nos fundos do terreiro, Azarias cultiva uma pequena floresta cheia de segredos. São ervas medicinais amplamente utilizadas pelos costumes populares e tradicionais, tanto pela eficácia quanto pela facilidade de acesso, como no caso da folha de algodão e da rosa branca (empregadas no tratamento de infecções urinárias), da arnica e da casca da aroeira (indicadas para processos inflamatórios).

Entre as raridades estão plantas de uso tradicional afro-indígena, mais restritas devido à dificuldade de cultivo ou menor domesticação, como o chapéu-de-couro (associado ao sistema cardiovascular), o canela-de-velho (utilizado para inflamações e doenças reumáticas) e o cipó-miômi (voltado para infecções nos órgãos reprodutivos), incorporados pela fitoterapia institucional.

Políticas Públicas

A fitoterapia — utilização de plantas para fins medicinais ou como suplemento alimentar — foi incluída na Estratégia de Medicina Tradicional da Organização Mundial da Saúde para o período de 2025 a 2034, com a aprovação de 170 países.

O que isso significa? O respeito da comunidade internacional aos sistemas médicos tradicionais, muitos embasados na ancestralidade e que, no futuro, devem servir como respostas aos desafios enfrentados pela área da saúde, como tanto deseja o enfermeiro Camilo Azarias.

No Brasil, a Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos – PNPMF — vem evoluindo ao longo de quase duas décadas, e busca garantir à população o acesso seguro e o uso racional de plantas medicinais e fitoterápicos. Hoje, o Sistema Único de Saúde disponibiliza 12 medicamentos fitoterápicos na Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (Rename), e existem 71 espécies com potencial fitoterápico aguardando processo de incorporação à lista.

No “frigir dos ovos”, o exagero não é aconselhado em nenhuma situação. Beba chá, sim, mas com moderação. A bebida traz benefícios, mas deve fazer parte de um cuidado integrado. Não cura nenhuma doença: o veredito é da ciência!

Sobre o autor Livia Calmon

Jornalista com passagens pelas redações da TV Globo — São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Minas Gerais e Bahia —, da TV Record SP, Band SP e revista IstoÉ Gente. Produtora de Conteúdo de Campanhas Políticas e estudiosa da área da saúde

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