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Esteatose hepática: a doença conhecida como “gordura no fígado” tem outros inimigos

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Era uma vez um artista que chegava a fazer 37 shows por mês. Em cada um deles, bebia pelo menos duas doses de cachaça antes de subir ao palco. Uma espécie de ritual — até a luz amarela acender no camarim e as interrogações surgirem diante do espelho. Era o “Rei do Piseiro”, João Gomes, se perguntando se não estava na hora de parar de beber.

A decisão veio aos 23 anos, junto com o medo de ser mais um a ter de tratar a gordura no fígado. Decisão corretíssima, dizem os especialistas. Nos últimos anos, o uso do álcool foi reconhecido como um promotor significativo da esteatose hepática, mesmo em doses mais baixas do que aquelas atribuídas à doença hepática associada ao álcool.

Esteatose hepática: a doença conhecida como "gordura no fígado" tem outros inimigos
A gordura no fígado pode aumentar o risco de doenças cardíacas e até tumores malignos | Foto: Reprodução/Canva

A coisa é muito séria e pode ficar feia

A doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica (MASLD) é uma das principais causas de doença hepática crônica em todo o mundo. A gordura no fígado pode aumentar o risco de doenças cardíacas e até tumores malignos.

Gente, me peguei pensando — doença no fígado pode atingir o coração, como assim? É mais que preocupante, é assustador. O corpo humano é realmente uma máquina interligada e precisamos ficar atentos aos sinais. O cardiologista Sergio Pontes, da Santa Casa de Misericórdia de Juiz de Fora, me ajudou a entender esse enigma:

“O depósito gorduroso leva a uma inflamação (esteato-hepatite) e posterior degeneração do tecido hepático, resultando em progressiva fibrose do órgão, podendo atingir um estágio de cirrose e suas consequências, que se associam ao aumento de eventos cardiovasculares (infarto, AVC e morte cardiovascular), além da possibilidade de evolução para hepatocarcinoma (tumor maligno)”, explica.

Na sequência, me fiz a seguinte pergunta: quantas pessoas no mundo, e no Brasil, consomem álcool acima dos índices permitidos? Responder esse questionamento é enumerar as possíveis criaturas que podem desenvolver a tal esteatose hepática.

Então vamos lá: essa doença, que é crônica assim como o diabetes e a hipertensão, afeta 30% da população mundial e 20% de nós, ou seja, mais de 42 milhões de brasileiros. Afinal, mais de 55% consomem bebidas alcoólicas, e em grande quantidade.

Ainda nesse perfil, precisamos levar em consideração aqueles com sobrepeso/obesidade, dislipidêmicos (alterações nos níveis de colesterol e triglicérides), diabéticos, tabagistas, sedentários e hipertensos.

Um nome técnico pouco conhecido, mas devastador

Uma pesquisa do Datafolha revelou que o nome técnico “esteatose hepática” é conhecido por apenas 19% dos entrevistados e que aproximadamente 44% dos brasileiros não identificam nenhum termo médico para se referir ao acúmulo de gordura no fígado.

A desinformação não ajuda em nada, sabemos disso. O médico alerta: “A doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica é extremamente prevalente e ainda negligenciada em sua avaliação”.

Também fui buscar a opinião de uma gastroenterologista e hepatologista, a Dra. Juliana Ferreira de Souza: “A esteatose hepática não é sinônimo de cirrose. A cirrose é uma das complicações da doença”, adverte.

A médica explica que o desconhecimento da enfermidade, suas causas e suas complicações tornam a pessoa mais vulnerável, já que não vai evitar hábitos de vida como consumo excessivo de bebida alcoólica, sedentarismo, má alimentação, entre outros, que podem contribuir para a evolução da doença.

Uma lata de cerveja de 350 ml tem 12 g de álcool

Os médicos não fazem cálculos precisos, mas, se o paciente bebe — não importando se pouco ou muito —, os especialistas ficam de olho nos fatores externos, aqueles que podem influenciar no aparecimento da esteatose hepática: “Obesidade (principalmente com aumento de circunferência abdominal), hipertensão, resistência insulínica, alterações de colesterol e triglicérides, considerado um conjunto de condições que favorecem a síndrome metabólica”, enumera a Dra. Juliana.

Mas alguns números devem ser levados em consideração: um consumo diário de 30 g de álcool para os homens e 20 g para as mulheres já pode elevar o risco de desenvolver a doença. Para se ter uma ideia, uma inocente latinha de cerveja de 350 ml tem 12 g de álcool.

Se você integra esse universo, faça as contas e tente diminuir a bebedeira — principalmente se seu DNA carrega os genes do diabetes ou polimorfismos genéticos. Nesse caso, a preocupação deve ser ainda maior: “Aumentam o risco para desenvolvimento de doença em estádios mais avançados, até surgimento do câncer hepático”, afirma a hepatologista.

Ainda existem as causas isoladas, como infecção pelo vírus da hepatite C, o uso de alguns medicamentos — a exemplo dos quimioterápicos, corticoides, hormônios, antidepressivos, antiarrítmicos e antirretrovirais —, além de doenças hepáticas genéticas, como a doença de Wilson (quando o fígado não libera o cobre na bile como deveria).

Cada caso é um caso

Assim é o tratamento da esteatose hepática. Dependendo do grau da doença, isso vai envolver medicamentos e mudança de hábitos, a começar pela alimentação saudável, sem ingestão excessiva de açúcares, carboidratos, gorduras saturadas e alimentos ultraprocessados; combate ao sedentarismo; investimento pesado em atividade física; abstinência alcoólica e cessação do tabagismo.

É crucial que o acompanhamento do paciente seja feito por uma força-tarefa que envolve, além do gastro/hepatologista, endocrinologista, cardiologista e outros profissionais não médicos, como nutricionistas, educadores físicos e psicólogos.

A prevenção ainda é o melhor remédio

A primeira causa de mortalidade em pacientes com esteatose hepática é a doença cardiovascular (infarto agudo do miocárdio e AVC), a segunda é o câncer — não só de fígado, extra-hepáticos também —, e a terceira é a evolução da doença hepática para cirrose hepática e suas complicações.

Então você até pode cantar:

“Traz cachaça aqui que hoje ele quer dar trabalho
A morena que eu quero tá em outra
E esquecer pra mim não é nenhuma opção
A mulher mais formosa que eu já olhei sem roupa
Faz dar trabalho ao fígado mais do que ao coração”

Mas só cante, porque exames como ultrassom não são baratos e, dependendo do perfil do paciente, pode ser necessária cirurgia bariátrica ou até mesmo transplante de fígado. Hoje, mais de duas mil pessoas esperam na fila.

O Sistema Único de Saúde gasta, todo ano, mais de R$ 300 milhões com tratamento de doenças hepáticas, sendo que 70% são destinados aos transplantes de fígado, como o realizado pelo apresentador Fausto Silva, o Faustão. O procedimento é indicado para pacientes com doenças hepáticas graves, como cirrose avançada, câncer no fígado ou falência hepática aguda.

É preciso entender, combater e, se possível, prevenir as doenças hepáticas!

Sobre o autor Livia Calmon

Jornalista com passagens pelas redações da TV Globo — São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Minas Gerais e Bahia —, da TV Record SP, Band SP e revista IstoÉ Gente. Produtora de Conteúdo de Campanhas Políticas e estudiosa da área da saúde

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