Quando uma doença acomete uma celebridade e isso vem a público, parece que a sociedade para e presta atenção. Foi o que aconteceu recentemente com Preta Gil. A enfermidade da qual vou falar hoje também chegou a pessoas famosas. As atrizes Cláudia Rodrigues, Guta Stresser, Ludmila Dayer e Ana Beatriz Nogueira declararam sofrer com a esclerose múltipla (EM).
Agosto é o mês de conscientização da EM, então vamos falar sobre ela. Vou começar dando uma notícia que me surpreendeu: a esclerose múltipla (doença inflamatória) não tem a ver com a esclerose lateral amiotrófica (doença degenerativa, destrutiva de células motoras) e muito menos com a chamada “esclerose do idoso” (doença demencial).

Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. As explicações me foram dadas pelo neurologista Carlos Augusto Damasceno, especialista em Neuroimunologia e coordenador do Centro de Referência em Esclerose Múltipla do Hospital Universitário da Universidade Federal de Juiz de Fora (MG).
Entendendo o básico
No século XIX, um médico que estudava o cérebro de pacientes pós-morte observou que alguns tinham várias cicatrizes endurecidas. Por isso, Jean-Martin Charcot chamou a condição de esclerose múltipla. Para a Medicina, o que está fibrosado é chamado de esclerosado — resultado de inflamações.
Continuando o B-A-BÁ: nosso corpo foi projetado para reconhecer e tolerar o que é próprio do organismo, atacando apenas invasores como bactérias, vírus, protozoários ou até mesmo células anormais, como as tumorais. Esse é o papel do sistema de defesa, uma espécie de Forças Armadas.
Quando a guerra é interna e gera inflamações no cérebro, na medula espinhal ou nos nervos ópticos, estamos falando de esclerose múltipla. “Essa alteração, que pode ter cunho genético e também sofrer influência de múltiplos fatores ambientais, passa a reconhecer as células do sistema nervoso como estranhas e, com isso, gera inflamação para destruí-las”, explica o especialista.
Inflamações e sintomas
À medida que as inflamações acontecem por dias ou semanas, surgem sintomas chamados de surtos. Eles podem passar por um período de estabilização, entrar em repouso espontâneo e desinflamar aos poucos, afirma o médico. O ideal é tratar essas inflamações precocemente porque, quando não são detectadas, podem provocar sequelas irreparáveis.
Você conhece alguém com esclerose múltipla? Preste atenção ao que essas pessoas podem sofrer. Os sintomas são muitos e dependem da área atingida pela inflamação: dormências, formigamentos, perda de tato, falta de coordenação motora, fraqueza muscular, vertigem, tremores, visão dupla, dor ocular com dificuldade visual, paralisia de dois ou quatro membros, incontinência urinária e fecal e, no caso dos homens, disfunção erétil.
Uma doença “dribladora”
Na maioria das vezes, as inflamações podem ser silenciosas, principalmente entre os jovens, e só são descobertas por meio da ressonância magnética.
Os surtos podem ser mais leves — quando o paciente consegue se recuperar — ou mais graves, deixando incapacidade motora. E por que isso acontece? “Porque a causa da doença é muito variável. As genéticas são diferentes; fatores externos como obesidade, tabagismo, estresse, presença de vírus na corrente sanguínea e alterações no intestino também interferem”, explica Dr. Damasceno.
Aliados no combate à doença
As primeiras drogas para combater a EM foram apresentadas em 1993. De lá para cá, o tratamento se tornou cada vez mais eficaz, já que as medicações agem em células específicas. Claro que existem efeitos colaterais, mas, cada vez mais, os pacientes conseguem levar uma vida normal.
Dos 13 medicamentos registrados pela Anvisa, o Sistema Único de Saúde oferta 10. Dos outros três, dois são disponibilizados pelos planos de saúde, desde que os pacientes atendam aos critérios estabelecidos. Um não é fornecido nem pelo SUS, nem pelos planos.
E, em alguns casos, é necessário que o paciente judicialize contra a rede pública ou privada. “São medicamentos de alto custo, com valores que variam de R$ 3.000 a R$ 5.000 por mês — em torno de R$ 60 mil ao ano. Os considerados de alta eficácia podem chegar a R$ 120 mil ou R$ 150 mil por ano”, explica o médico.
O cenário no Brasil
Segundo Dr. Carlos Augusto, não existe um levantamento epidemiológico oficial no Brasil. Estima-se que, para cada 100 mil habitantes, existam de 15 a 18 portadores de EM — ou seja, mais de 36 mil brasileiros.
“É uma doença predominantemente da raça branca. Como o nosso país é miscigenado, fica difícil contabilizar. O Sudeste e o Sul são as regiões com o maior número de pacientes”, explica o neurologista.
Esclerose múltipla não mata
A esclerose múltipla é uma doença crônica: tem controle, mas não tem cura. “A sobrevida é próxima do normal. Das doenças neurológicas, foi a que mais evoluiu em tratamento e conhecimento nesses últimos 30 anos”, afirma o especialista, que trabalha com EM desde 2001.
“É uma doença predominantemente jovem porque ela é autoimune, e a imunidade nos jovens é muito forte. Com o envelhecimento, a imunidade cai. É comum que os primeiros sintomas surjam entre os 20 e os 40 anos, podendo ocorrer antes ou depois dessa faixa etária. Acomete o dobro de mulheres em relação aos homens”, finaliza.


