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Ambulatório do Luto: nova lei garante suporte do SUS para mães e pais enlutados

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Este ano, o Brasil viveu dois grandes momentos de comoção nacional: um com a morte da empoderada cantora Preta Gil e outro com o do espetacular sambista Arlindo Cruz.

Em ambas as despedidas, muitas cenas emocionantes. Uma chamou mais a minha atenção: foi quando a atriz Carolina Dieckmann se debruçou sobre o corpo da amiga enquanto chorava copiosamente.

É duro dizer, mas milhares de pessoas morrem por dia em todo o mundo, e quase ninguém está preparado para enfrentar a ausência. Só quem perde um ente querido sabe o tamanho da dor.

Como curá-la? É possível? Eu, pessoalmente, não tenho certeza, mas talvez seja crível amenizar esse martírio. Assim nasce essa pauta, esse texto. O Sistema Único de Saúde disponibiliza o Ambulatório do Luto com demanda espontânea. Você sabia?

Nova lei cria política nacional de humanização do luto materno e parental | Foto: Reprodução/Canva
Nova lei cria política nacional de humanização do luto materno e parental | Foto: Reprodução/Canva

Ambulatório do Luto Parental de portas abertas

Em maio deste ano, o presidente Lula (PT) sancionou a lei que cria a Política Nacional de Humanização do Luto Materno e Parental. Ou seja, a partir de agora, o SUS passa a oferecer tratamento e acolhimento às famílias que enfrentam a perda de um filho durante ou depois da gestação.

São diretrizes e orientações em torno da humanização do cuidado às mulheres e demais familiares que vivenciam a perda gestacional ou neonatal. Segundo o Ministério da Saúde, atualmente no Brasil apenas três hospitais oferecem o serviço: Hospital Materno Infantil de Brasília (HMIB), o Hospital Materno de Ribeirão Preto (SP) e a Maternidade de Alta Complexidade do Maranhão (PI).

Na minha opinião, os demais hospitais precisam se adequar e logo, porque essas famílias necessitam de aparato médico para suportar essa amargura, que pode desencadear transtornos mentais graves, a exemplo da depressão.

Como funciona um Ambulatório do Luto para os adultos?

Muitos preferem o silêncio e se fecham como uma concha; outros extravasam através das lágrimas. Mas todos precisam de ajuda, seja da família, dos amigos ou dos médicos.

Alguns ambulatórios surgiram no período da pandemia, como o criado pela equipe do Hospital Universitário da Universidade Federal de Juiz de Fora (MG), que teve seu start a partir do Projeto de Extensão Enlutar, com atendimento realizado de forma online, hoje presencial.

Após quatro anos de implantação, os profissionais analisaram os resultados atingidos e perceberam a necessidade de avançar na direção do público infantil. Assim foi desenvolvido o “Enlutinho”, voltado para as crianças enlutadas.

Só de pensar, meu coração entristece. Tratar adultos não é tarefa fácil; fico imaginando os pequenos. A lei natural da vida não é filho enterrar os pais.

A Bahia também já arregaçou as mangas

Mesmo com a capacidade de atendimento restrita e uma equipe reduzida, o Ambulatório do Luto do Hospital Universitário Professor Edgar Santos (Hospital das Clínicas), em Salvador, vem realizando um trabalho de excelência.

“Os pacientes são acompanhados, no mínimo, semanalmente, por um ano ou mais. Desde que foi criado, em 2017, já atendeu 140 pessoas de diversas faixas etárias”, me contou a psicóloga Mônica Venâncio, coordenadora técnica do serviço.

É uma condução delicada que só termina quando a equipe tem a certeza de que o enlutado consegue realizar o trabalho psíquico exigido pelo luto. De acordo com a especialista, não é um processo automático diante de uma perda; exige tempo.

O Ministério da Saúde não determina um formato a ser seguido. Em Salvador, trata-se de um ambulatório de Psicologia, com orientação da Psicanálise. Quando necessário, outros profissionais são acionados, como médicos de várias especialidades, assistentes sociais e até defensores públicos.

Como é feita a abordagem

Cada um sente a perda de uma maneira. No meu caso, quando minha mãe partiu, achei que o mundo ia acabar. Mas me juntei à minha irmã para enfrentar a dor. Geralmente, são pessoas que estão lidando com uma perda devastadora, em sofrimento intenso, com prejuízos em diversas esferas da vida, como laboral, familiar, conjugal ou escolar, diz a psicóloga:

“Além disso, é comum que, diante da tristeza intensa e persistente, negligenciem as atividades de autocuidado (higiene, alimentação, consultas de saúde etc) e assumam comportamentos suicidas e/ou homicidas, isolamento social, sono excessivo ou insônia, e recorrentes conflitos nas relações interpessoais.”

No Hospital das Clínicas, na capital baiana, a equipe age orientada pela lógica da classificação de risco e pelo princípio da equidade. O acolhimento obedece à ordem de pessoas cadastradas. “Mas são priorizados aqueles que estão em urgência subjetiva e/ou oferecendo risco a si mesmos ou a terceiros. Já temos lista de espera”, explica a psicóloga.

O que é o luto?

“O luto não é um transtorno mental. É preciso entender que, diante da perda de uma pessoa importante para o sujeito, é esperado que ele não reaja e não se apresente diante da sociedade da mesma forma que se apresentava antes. A princípio, isso não é patológico. O sofrimento humano não pode ser lido sempre como uma patologia”, reforça Mônica Venâncio.

A especialista afirma: “Tristeza, medos, angústias fazem parte da vida humana. Sinalizo isso porque vivemos em uma tendência constante de comparar e normatizar as emoções humanas. Aquilo que foge à norma é lido como doença.” E não é.

A escuta e os serviços terapêuticos são a grande aposta dos profissionais. A psiquiatrização e medicalização do luto não são vistas como a primeira e única alternativa de tratamento.

Tempo Rei

Não poderia terminar esse texto de outra maneira. Depois de assistir à entrevista de Gilberto Gil ao programa Fantástico, e ouvir desse mestre da sabedoria que “A morte faz parte da vida”, entendi que precisamos seguir em frente, conviver com o luto, com a saudade. Com certeza, a espiritualidade pode ajudar. Eu creio!

Sobre o autor Livia Calmon

Jornalista com passagens pelas redações da TV Globo — São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Minas Gerais e Bahia —, da TV Record SP, Band SP e revista IstoÉ Gente. Produtora de Conteúdo de Campanhas Políticas e estudiosa da área da saúde

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