Enquanto ela palestrava, eu, boquiaberta, acenava com a cabeça e pensava: não é que ela tem razão? Pouco falamos sobre um assunto tão importante — a saúde íntima da mulher.
A pergunta é: o que é saúde íntima da mulher? A resposta foi dada por Anadelle Souza, enfermeira especializada em estomaterapia, área voltada a cuidados de feridas, estomias (aberturas cirúrgicas para eliminação de urina ou fezes) e disfunções do assoalho pélvico (alterações urinárias, sexuais e fecais).

Apaixonada pelo último assunto, a profissional fez questão de explicar que o assoalho pélvico é um conjunto de 14 músculos, literalmente uma rede, que sustenta órgãos importantes como bexiga, útero e intestino. Por fora, tem três orifícios: uretra, canal vaginal e ânus.
Ao final da explanação, a especialista, que estuda a temática há 14 anos, disse: “Cuidar da nossa sexualidade, da função urinária, evacuatória, do que está no nosso íntimo, é ter saúde”.
Traduzindo as disfunções
Assim que a apresentação acabou, corri na direção de Anadelle e marquei uma entrevista. A nossa conversa presencial transcorreu deliciosamente por uma hora, tempo suficiente para entender que nós, mulheres, devemos ficar atentas a alguns sintomas, como, por exemplo: tossiu, espirrou, perdeu xixi? Está em algum lugar e sente aquela vontade súbita de ir ao banheiro e não consegue levantar a tampa do vaso porque o xixi já saiu? Tem perda de urina contínua, aquele pinga-pinga? Procure ajuda.
Não consegue atingir o orgasmo? Não tem lubrificação? Tem estreitamento vaginal? Tudo isso, independentemente da menopausa? Procure ajuda.
Se sentir uma bola no canal vaginal, procure ajuda: pode ser o que é conhecido como bexiga caída ou útero caído, explica Anadelle. Em todos os casos, é preciso acompanhamento para que seja realizada a reabilitação do assoalho pélvico.
Vencendo o tabu
Segundo a especialista, as mulheres já chegam ao consultório perdendo muita urina, e isso não pode ser considerado normal, independentemente da idade, com exceção das idosas em processo de demência.
“Elas chegam aqui com uma perda de urina significativa e com queixas sexuais importantes, a exemplo da falta de lubrificação, estreitamento vaginal e baixa libido (a maioria devido à menopausa)”, alerta a enfermeira.
A timidez, a vergonha e, às vezes, a desinformação, fazem com que, nas primeiras sessões, sejam necessárias muitas perguntas, praticamente um interrogatório. Só depois as pacientes se libertam, acaba o constrangimento e surge a verdade — mas isso depois do terceiro ou quarto encontro, o que confirma o tabu em torno do tema.
A idade pouco importa
As queixas são comuns entre mulheres com faixa etária entre 35 e 45 anos. Mas, pasmem, no consultório Anadelle atende mulheres com idades que variam de 26 a 91 anos.
Mais novas ou mais velhas, os relatos são muito parecidos. O pior é que as mulheres acham que todos os sintomas são normais porque atribuem ao envelhecimento — e não é. Por isso, é preciso mudar esse paradigma, falar mais sobre o assunto, divulgar mais.
“Minha alegria é ouvir a paciente dizer: eu parei de pingar xixi porque aprendi a sentar no vaso adequadamente. Um ajuste comportamental, de não segurar o xixi e de não forçar o jato urinário, já traz para a mulher bem-estar, conforto. Simples orientações e sem custo”, vibra Anadelle.
Cross Fit das partes íntimas
É assim que a enfermeira define a metodologia aplicada: é similar a uma academia de ginástica. Para isso, ela conta com um aparato de equipamentos, pesos, bolinhas de vários tamanhos, vibrador, sonda, eletroterapia (para acalmar ou “acordar” a bexiga) e, em casos mais avançados, laserterapia.
Ao mesmo tempo em que a paciente pratica as atividades, acompanha os próprios movimentos por um monitor que exibe gráficos mostrando a evolução do tratamento. É algo surpreendente. Detalhe: os exercícios também precisam ser praticados em casa para um resultado mais célere.
Cada corpo no seu tempo. Geralmente, é aconselhada uma sessão por semana durante pelo menos três meses. A especialista garante que o resultado é 100% na maioria dos casos (para mulheres com função cognitiva e nervosa preservadas), o que dispensa a necessidade de cirurgia. Caso seja necessário um procedimento, a paciente é encaminhada para um urologista para exames mais aprofundados.
Onde procurar ajuda
O Sistema Único de Saúde (SUS) disponibiliza o serviço de reabilitação do assoalho pélvico, mas a demanda é maior que a capacidade de atendimento. É preciso mais investimento nesta área. No setor privado, os preços são altos: cada sessão pode custar R$ 250, e o tratamento pode durar três meses ou mais.
Anadelle Souza não indica a utilização de medicamentos tradicionais. De 2019 a janeiro deste ano, a profissional, com o apoio de uma farmacêutica, realizou um estudo baseado nas principais queixas das pacientes e desenvolveu algumas fórmulas à base de produtos naturais que aliviam sintomas.
Como exemplo, a enfermeira cita uma paciente que sofria com vaginismo (vagina muito fechada), o que não permitia nem a aplicação de lubrificante. Anadelle criou uma cápsula que, introduzida no canal vaginal, se desmancha e libera lubrificante. Há também soluções para candidíase de repetição e infecção urinária recorrente: sabonetes, cremes e enxaguantes.
Dicas da especialista
Quanto tempo você leva debaixo do chuveiro? Reserve pelo menos três minutos para higienizar as partes íntimas durante o banho. Sim, três minutos para uma limpeza adequada. “Comece pelos grandes lábios, depois os pequenos, aproveite para se massagear, em seguida a região anal. Estou falando baseada em estudos. Nunca ouvi uma mulher dizer que passa esse período se lavando”, relata a estudiosa.
É assim que conseguimos retirar o esmegma (substância natural formada por células mortas da pele, secreções oleosas e umidade produzida pelo corpo para lubrificar e proteger a área genital, que quando acumulada pode causar mau cheiro e irritação se não for removida regularmente).
“Ter uma higiene correta é saúde, bem-estar, plenitude. Tem que sentir que a região está higienizada, com odor agradável”, complementa Anadelle.
Atenção!
Na hora de fazer o número um ou o dois, curve o corpo para frente, apoie os pés firmes no chão ou eleve as pernas com a ajuda de um banquinho, e descanse os dois braços nas pernas. Essa é a posição correta para uma evacuação completa. Os indígenas faziam isso de cócoras, como nos velhos tempos. Isso ajuda a manter o assoalho pélvico equilibrado. E não tenha pressa: o relaxamento pode ajudar muito.
Minha dica
As mulheres precisam falar mais sobre o assunto, buscar informações, orientações, conhecer o próprio corpo, não ter vergonha de se olhar no espelho e de se tocar, e não acreditar que dores fazem parte do cotidiano. Meu conselho é: não deixe para amanhã o que pode fazer hoje! Se cuide!


