Nesta sexta-feira, 5 de setembro, acontece em São Paulo o leilão que vai escolher a empresa responsável por construir e operar o primeiro túnel submerso do Brasil, ligando Santos e Guarujá. O projeto, estimado em R$ 6,8 bilhões, é considerado a maior obra do Novo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) e terá financiamento dividido entre União, Estado de São Paulo e iniciativa privada.

Apenas duas empresas estrangeiras foram habilitadas: a portuguesa Mota-Engil, com participação acionária da chinesa CCCC, e a espanhola Acciona. A concessão terá duração de 30 anos.
O túnel terá 1,5 km de extensão, sendo 870 metros submersos, com três faixas por sentido — uma delas destinada ao VLT (Veículo Leve sobre Trilhos) — além de passagem para pedestres e ciclistas. A expectativa é que a nova estrutura reduza filas, acelere a mobilidade regional e traga impacto direto ao funcionamento do Porto de Santos, um dos mais movimentados do país.
Quem disputa o leilão
A concorrência, realizada na B3, ficou restrita a duas companhias estrangeiras:
- Mota-Engil: de origem portuguesa, atua em mais de 50 países e tem expandido sua presença no Brasil. Recentemente adquiriu a ECB (Empresa Construtora Brasileira), sediada em Belo Horizonte. Cerca de 30% do capital da empresa pertence à chinesa CCCC, uma das maiores construtoras do mundo.
- Acciona: empresa espanhola com operações no Brasil nas áreas de energia, rodovias e saneamento básico, apostando em concessões e PPPs.
Construtoras nacionais como Odebrecht, Álya (antiga Queiroz Galvão) e Andrade Gutierrez desistiram de apresentar propostas. A empresa vencedora será aquela que oferecer o maior desconto sobre a parcela mensal paga pelo poder público durante a concessão. Em caso de empate, haverá lances ao vivo. A empresa escolhida ficará responsável pela construção, operação e manutenção do túnel ao longo de 30 anos.
Estrutura e tecnologia do projeto
O túnel será construído pelo método imerso, inédito no Brasil, mas já consolidado em países da Europa e da Ásia. Diferente de túneis escavados, ele será composto por grandes blocos de concreto pré-moldados, com câmaras internas de ar, posicionados no fundo do canal portuário. A escolha levou em conta o solo instável da região, formado por argilas e sedimentos, que não permitiria escavações profundas.
Além de menor impacto visual e menos desapropriações, o modelo deve garantir execução mais rápida. Uma ponte chegou a ser considerada, mas foi descartada por conta das restrições da Base Aérea de Santos e do intenso tráfego de navios no canal.
Passo a passo da construção
Preparação do leito – escavação no fundo do canal, aplicação de base de concreto e construção dos módulos em docas secas.
Transporte e imersão – rebocadores levam os módulos até o local, onde são afundados de forma controlada e encaixados com auxílio de sistemas hidráulicos.
Proteção – toda a estrutura é recoberta com pedras para evitar deslocamentos causados por correntes marítimas e impactos externos.
Prazos e expectativas
Segundo o edital, as obras devem começar ainda em 2025 e ser concluídas até 2030. Ao fim, a estrutura permitirá a travessia de carros, caminhões, ônibus, bicicletas e pedestres, além do VLT.
Um projeto de quase 100 anos
A construção de um túnel entre Santos e Guarujá é discutida há quase um século. O primeiro projeto foi elaborado em 1927, durante o governo de Júlio Prestes em São Paulo, mas nunca saiu do papel. A proposta foi retomada diversas vezes, até que o edital fosse lançado em 2024 pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em parceria com o governador Tarcísio de Freitas.
O projeto também tem peso político. Lula e Tarcísio, embora tenham aparecido juntos no lançamento do edital, disputam os créditos pela obra em falas a seus eleitores. O governador é cotado como possível candidato presidencial em 2026, o que aumenta a visibilidade do tema.


