Rodrigo Paz, de 58 anos, foi eleito no segundo turno das eleições na Bolívia e surpreendeu ao se tornar o primeiro conservador a vencer uma disputa presidencial no país em 20 anos. Ele assume o cargo no dia 8 de novembro, prometendo tirar os bolivianos da crise econômica que atinge o país e recuperar a confiança internacional.

O novo presidente é economista, estudou relações internacionais e já foi deputado, prefeito e senador. Durante a campanha, apresentou-se como um político de centro, com ideias voltadas para o mercado, mas também preocupado com as classes populares.
Crise na economia
A situação econômica da Bolívia é difícil. O país enfrenta inflação alta, de 23% ao ano, o que significa que os preços de alimentos e serviços sobem rapidamente, enquanto o salário perde valor. Além disso, há falta de combustível e de dólares, o que causa filas em postos e bancos e dificulta a importação de produtos.
Esse cenário é resultado de anos de dependência do gás natural, principal produto de exportação boliviano, e de políticas de subsídios, quando o governo paga parte dos custos de produtos e serviços para manter os preços baixos. Esse modelo funcionou quando o país vendia muito gás para o exterior, mas, com a queda das exportações, o dinheiro acabou.
Agora, Paz promete uma mudança de rumo. Disse que quer reativar a economia sem recorrer a empréstimos do Fundo Monetário Internacional (FMI), uma instituição internacional que empresta dinheiro a países em crise, mas geralmente exige cortes de gastos públicos em troca.
“Capitalismo para todos” e descentralização
O novo presidente quer colocar em prática o que chama de “capitalismo para todos”, um plano que busca incentivar pequenos negócios, reduzir impostos e facilitar o acesso a crédito. Com essa tática, ele pretende dar empréstimos com juros mais baixos para quem quer investir e trabalhar. Segundo ele, isso vai ajudar a gerar emprego e renda sem precisar aumentar a dívida do país.
Outro ponto importante é o projeto chamado “agenda 50/50”. Hoje, cerca de 85% do dinheiro público fica nas mãos do governo central, em La Paz, e apenas uma parte pequena vai para as regiões e universidades. Paz quer mudar isso, dividindo o orçamento em partes iguais: metade para o governo nacional e metade para os departamentos e cidades. A ideia é dar mais autonomia e melhorar os serviços locais, como saúde, educação e infraestrutura.
Paz também afirma que vai priorizar a luta contra a corrupção e a reforma da Justiça, que ele considera falhas graves no país. Seu vice-presidente eleito, Edman Lara, é um ex-policial conhecido por denunciar casos de corrupção dentro da própria polícia. Durante a campanha, isso ajudou a atrair eleitores cansados de escândalos e promessas não cumpridas.
Um país dividido e um desafio político
A vitória de Paz mostra um país dividido. O leste da Bolívia, região mais rica e conservadora, apoiou o candidato rival, o ex-presidente Jorge Quiroga. Já o oeste, com mais população indígena e menor renda, foi decisivo para a vitória de Paz.
Ele promete governar “com as mãos estendidas para todos”, tentando unir os diferentes grupos e diminuir as tensões políticas que aumentaram nos últimos anos. Também precisa lidar com a influência ainda forte do ex-presidente Evo Morales, que mesmo fora das eleições continua sendo uma figura popular entre muitos bolivianos e pode influenciar o rumo da oposição.
Relação com o Brasil e o mundo
A Bolívia é um país vizinho importante para o Brasil, especialmente devido ao fornecimento de gás natural. Parte da energia usada por indústrias e usinas brasileiras vem desse gás, transportado por gasodutos que ligam os dois países. Se Paz conseguir aumentar a produção e estabilizar a economia, o Brasil pode se beneficiar com maior segurança no abastecimento e preços mais estáveis. Mas se houver atrasos ou novas crises, isso pode afetar o custo da energia por aqui.
Na política externa, o novo presidente também deve mudar de direção. Durante a campanha, ele visitou Washington, capital dos Estados Unidos, e defendeu melhorar as relações com o governo americano. Essa reaproximação marca uma grande mudança em relação aos últimos anos, quando a Bolívia se alinhou a países como Venezuela, China e Rússia e manteve distância dos Estados Unidos.
Para Paz, reabrir o país ao mundo significa atrair investimentos e restaurar a confiança de outros países na economia boliviana.


