O Censo Demográfico de 2022, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), confirmou o que boa parte da população já sente no dia a dia: a maioria dos trabalhadores brasileiros ganha pouco. Segundo o levantamento, dois em cada três trabalhadores do país recebiam até dois salários mínimos por mês em 2022, o que equivale a R$ 2.424, considerando o salário mínimo de R$ 1.212 vigente naquele ano.

Já o grupo que recebia entre um e dois salários mínimos correspondia a 32,7% dos trabalhadores. No outro extremo, apenas 7,6% da população ocupada tinha rendimentos acima de cinco salários mínimos, o que representa ganhos mensais superiores a R$ 6.060.
Entre os mais ricos, o grupo é ainda menor: só 0,7% da população ganhava mais de 20 salários mínimos, ou seja, acima de R$ 24.240 mensais. Esse dado evidencia o alto nível de desigualdade de renda no Brasil, onde a grande maioria dos trabalhadores sobrevive com valores muito próximos ao mínimo legal.
Desigualdade regional
As diferenças salariais também são grandes dependendo da região do país. Em 2022, o rendimento médio do trabalho foi de R$ 2.851 no Brasil. Mas, no Norte e no Nordeste, as pessoas ocupadas recebiam bem menos: R$ 2.238 e R$ 2.015, respectivamente. Isso representa cerca de 78,5% e 70,7% da média nacional.
Já o Centro-Oeste apresentou o maior rendimento médio do país, com R$ 3.292, cerca de 16,7% acima da média nacional. O Sul e o Sudeste vieram logo atrás, com médias de R$ 3.190 e R$ 3.154, valores também superiores à média brasileira.
Esses números refletem a distribuição desigual das oportunidades econômicas e da estrutura produtiva no país. Enquanto parte do Sudeste e do Centro-Oeste concentra empregos formais e de maior qualificação, Norte e Nordeste ainda dependem de atividades com salários menores, como o comércio informal, a agricultura e os serviços de baixa remuneração.
Renda por estado e cidade
Entre os estados, apenas nove das 27 unidades da federação tiveram renda média mensal superior à média nacional. O destaque foi o Distrito Federal, com rendimento médio de R$ 4.715, cerca de 65% acima da média do país. Essa diferença se explica pela grande concentração de empregos públicos e funções administrativas na capital federal.
Nos municípios, a desigualdade é ainda mais acentuada. Dos 5.571 municípios brasileiros, 520 registraram rendimento médio inferior a um salário mínimo — menos de R$ 1.212 por mês. Por outro lado, apenas 19 cidades do país apresentaram renda média superior a quatro salários mínimos, acima de R$ 4.848.
As cidades com menores rendimentos ficam todas no Nordeste. O pior resultado foi de Cachoeira Grande, no Maranhão, com renda média de apenas R$ 759. Em seguida aparecem Caraúbas do Piauí (R$ 788) e Mulungu do Morro, na Bahia (R$ 805). No outro extremo, os municípios com as maiores rendas do país estão nas regiões Sul e Sudeste, com destaque para Nova Lima (MG), São Caetano do Sul (SP) e Santana de Parnaíba (SP), onde a renda média ultrapassa os R$ 6 mil mensais.
Diferenças por gênero, raça e escolaridade
Além das diferenças regionais, o Censo mostrou que o rendimento também varia bastante conforme o perfil do trabalhador. Em todos os níveis de escolaridade, os homens tiveram rendimentos médios maiores que as mulheres. A diferença mais expressiva foi observada entre quem tinha ensino superior completo: os homens recebiam, em média, R$ 7.347, enquanto as mulheres, R$ 4.591.
A desigualdade também aparece quando se observa a renda por cor ou raça. Trabalhadores que se declararam brancos ou amarelos tiveram rendimentos mais altos. Já os que se autodeclararam pretos, pardos ou indígenas receberam, em média, valores menores.
O levantamento também analisou a renda domiciliar per capita, que mostra quanto cada pessoa teria se a renda total da casa fosse dividida igualmente entre os moradores. Em 2022, essa média nacional foi de R$ 1.638 por pessoa. Mas cerca de 13,3% da população vivia com até um quarto do salário mínimo por mês (R$ 303), o que indica situação de pobreza. Nas regiões Norte e Nordeste, essa proporção era ainda maior: 23,3% e 22,4%, respectivamente.
Mercado de trabalho e nível de ocupação
O Censo 2022 também mediu o chamado “nível de ocupação”, que é a proporção de pessoas com 14 anos ou mais que estavam trabalhando. O índice nacional ficou em 53,5%. Entre os homens, 62,9% estavam ocupados, enquanto entre as mulheres o percentual foi de 44,9%. A faixa etária com maior participação no mercado de trabalho foi a de 35 a 39 anos, com 72,8%.
Entre os jovens de 14 a 17 anos, o nível de ocupação variou entre 11% e 13%, refletindo o maior tempo dedicado aos estudos. Já entre os idosos com 65 anos ou mais, apenas 14,9% continuavam trabalhando, o que é comum diante da aposentadoria e das limitações físicas.
Desigualdade estrutural
Os dados mostram que o Brasil segue com uma das maiores concentrações de renda da América Latina. Embora o percentual de pessoas com renda muito baixa tenha diminuído ligeiramente desde o Censo de 2010, o grupo com rendimentos mais altos também encolheu.
Em 2010, cerca de 9,6% dos trabalhadores ganhavam mais de cinco salários mínimos; em 2022, essa fatia caiu para 7,6%. Já o grupo que recebia até um salário mínimo representava 36,4% em 2010 e 35,3% em 2022. Ou seja, houve pouca mudança estrutural na distribuição da renda do trabalho ao longo de mais de uma década.
O levantamento completo do Censo 2022 sobre trabalho e rendimento está disponível no site do IBGE e detalha as diferenças por estado, cidade, gênero, cor, escolaridade e idade.


