O Banco Master se tornou, em pouco tempo, um dos casos mais delicados do sistema financeiro brasileiro. O episódio envolve crescimento acelerado, oferta de investimentos com juros elevados, questionamentos sobre a real saúde financeira da instituição, decisões do Banco Central, disputas entre órgãos públicos e, mais recentemente, uma ampla operação da Polícia Federal, que resultou no bloqueio de bilhões de reais.

Crescimento acelerado e a estratégia dos CDBs
Nos últimos anos, o Banco Master registrou um crescimento rápido apoiado em uma estratégia de captação considerada arriscada por analistas do mercado. O principal instrumento usado foram os Certificados de Depósito Bancário (CDBs), um tipo de investimento em que o cliente empresta dinheiro ao banco e recebe o valor de volta com juros ao final do prazo.
O diferencial estava nas taxas oferecidas, muito superiores às praticadas por outras instituições. Esse retorno elevado atraiu investidores principalmente por causa da proteção do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), que garante até R$ 250 mil por CPF e por instituição em caso de falência de um banco associado. O FGC é um mecanismo privado, mantido pelas próprias instituições financeiras, e funciona como uma rede de segurança para pequenos e médios investidores.
Esse modelo, porém, trouxe um efeito colateral relevante. Para sustentar juros tão altos, o Master direcionou grande parte dos recursos captados para ativos de baixa liquidez, como precatórios e participações em empresas em dificuldades financeiras. Com isso, o banco acumulou um passivo bilionário lastreado em ativos difíceis de transformar em dinheiro no curto prazo. A estratégia elevou os custos da instituição e ampliou as dúvidas sobre sua capacidade de honrar compromissos futuros.
Tentativas de venda e avanço inicial com o BRB
Com o agravamento do cenário financeiro, o controlador do banco, Daniel Vorcaro, iniciou a busca por um comprador. A primeira grande tentativa envolveu o Banco de Brasília (BRB).
Em 28 de março de 2025, o Conselho de Administração do BRB aprovou, por unanimidade, a compra do Banco Master. O acordo previa a aquisição de 49% das ações ordinárias, 100% das ações preferenciais e 58% do capital total da instituição, com operações concentradas principalmente no Rio de Janeiro e em São Paulo.
O negócio avançou nas etapas seguintes. Em 17 de junho de 2025, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) aprovou a transação, avaliando que ela não traria prejuízos à concorrência. Já em 19 de agosto de 2025, a Câmara Legislativa do Distrito Federal aprovou um Projeto de Lei, autorizando o BRB a realizar a compra. A votação ocorreu em dois turnos, com 14 votos favoráveis e 7 contrários, e foi sancionada no dia seguinte pelo governador Ibaneis Rocha.

O veto do Banco Central e o agravamento da crise
O desfecho veio no início de setembro de 2025, quando o Banco Central negou a compra do Banco Master pelo BRB. A decisão encerrou a principal alternativa de solução encontrada até então e aumentou significativamente a pressão sobre a instituição.
Após o veto, o banco seguiu procurando outro comprador no mercado, enquanto o acompanhamento do BC se tornava mais rigoroso. A situação de liquidez se deteriorava e a confiança em torno da instituição diminuía.
A Fictor, a promessa de aporte e a prisão de Vorcaro
Em 17 de novembro de 2025, o Banco Master anunciou uma nova tentativa de saída. A Fictor Holding Financeira informou a compra da instituição em conjunto com um consórcio de investidores dos Emirados Árabes Unidos. O acordo previa um aporte imediato de R$ 3 bilhões para reforçar a estrutura de capital, e o banco passaria a se chamar Banco Fictor, ainda dependendo de aprovações do Banco Central e do Cade.
Poucas horas depois do anúncio, a Polícia Federal prendeu Daniel Vorcaro no aeroporto de Guarulhos, quando ele embarcava para os Emirados Árabes Unidos em um avião particular. Para os investigadores, havia risco de fuga. A defesa negou essa versão e afirmou que o destino final seria Dubai, onde Vorcaro pretendia se encontrar com parte dos compradores do Banco Master.
Liquidação extrajudicial e regime especial
No dia seguinte, 18 de novembro de 2025, foi deflagrada a operação Compliance Zero. No mesmo dia, o Banco Central decidiu instaurar o Regime de Administração Especial Temporária (Raet) por 120 dias e decretar a liquidação extrajudicial do Banco Master.
A medida resultou no fechamento da instituição, na sua retirada do sistema financeiro nacional e na nomeação de um liquidante, responsável por assumir o controle do banco, encerrar operações, vender ativos e quitar credores conforme a ordem legal.
No ofício assinado pelo presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, a decisão foi justificada pela “situação econômico-financeira da instituição” e pela “infringência às normas que disciplinam a atividade bancária”. Segundo o BC, o conglomerado enfrentava uma grave crise de liquidez e um comprometimento significativo da sua estrutura financeira.
Os principais pontos da investigação
Nas fases iniciais da investigação, a Polícia Federal passou a apurar um conjunto de operações que ajudariam a explicar a dimensão do caso. Segundo os investigadores, o Banco Master teria emitido cerca de R$ 50 bilhões em CDBs, prometendo juros acima do mercado sem comprovar que possuía liquidez suficiente para honrar esses títulos no futuro.
Para reforçar a impressão de solidez, o banco teria aplicado parte dos recursos em ativos que não existiam, adquirindo créditos de uma empresa chamada Tirreno. De acordo com as apurações, o Master não teria pago por essa compra e, logo em seguida, vendeu esses mesmos créditos ao BRB, que desembolsou R$ 12,2 bilhões, sem documentação suficiente, em uma operação que teria servido para aliviar o caixa do Banco Master.
Essas transações ocorreram no mesmo período em que o BRB tentava comprar o próprio Banco Master e buscava convencer órgãos de fiscalização de que a operação era viável e não traria riscos aos acionistas, incluindo o governo do Distrito Federal. Na segunda fase da operação Compliance Zero, a PF ampliou o alcance das investigações, com buscas em endereços ligados a Vorcaro e a familiares, além de pessoas ligadas a gestora Reag Investimentos.
Segundo as autoridades, o esquema envolveria a captação de recursos, a aplicação desses valores em fundos e o posterior desvio para o patrimônio pessoal de Vorcaro. Durante o cumprimento dos mandados, a PF apreendeu o celular do controlador do banco.
Questionamentos no TCU e disputa institucional

O Tribunal de Contas da União (TCU) determinou inicialmente a realização de uma inspeção para analisar documentos relacionados ao processo. O relator do caso, o ministro Jhonatan de Jesus, solicitou esclarecimentos ao BC sobre indícios de que a medida poderia ter sido adotada de forma precipitada. A iniciativa provocou reação imediata de entidades do setor financeiro, que saíram em defesa da autonomia do Banco Central.
Diante da repercussão, o BC recorreu ao TCU, e o relator suspendeu a inspeção até manifestação do plenário. Após reuniões entre os presidentes das duas instituições, BC e TCU chegaram a um acordo para a realização de diligências técnicas, com acesso restrito a documentos e preservação do sigilo bancário.
Sigilo no STF e envolvimento de ministros
A apuração criminal chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF) por decisão do ministro Dias Toffoli, que assumiu a relatoria e determinou a concentração das medidas judiciais no Supremo, suspendendo procedimentos em instâncias inferiores.
A justificativa foi a existência de informações econômicas sensíveis, com potencial de gerar impactos sobre o sistema financeiro. Entre as medidas adotadas estão a decretação de sigilo sobre partes do inquérito e a autorização de atos como acareações.
O caso também passou a envolver questionamentos após a divulgação de uma viagem de Toffoli em um voo particular que transportava um advogado ligado à defesa de um ex-diretor do Banco Master. O ministro confirmou a presença no voo, mas afirmou que não houve qualquer discussão sobre o processo.
Poucos dias depois, Toffoli determinou o sigilo do caso e acolheu o pedido para que a investigação fosse formalmente transferida ao STF. O episódio trouxe ainda à tona vínculos do banco com integrantes do Supremo, incluindo a existência de um contrato entre o Banco Master e a esposa do ministro Alexandre de Moraes. O procurador-geral da República, Paulo Gonet, descartou ilicitude e arquivou pedido de investigação.
Quem são os alvos da operação e o que dizem?
Na segunda fase da operação Compliance Zero, a Polícia Federal apreendeu carros, relógios de luxo, dinheiro em espécie e outros bens. Ao todo, foram recolhidos R$ 97,3 mil em dinheiro, além do bloqueio e sequestro de bens e valores que somam mais de R$ 5,7 bilhões.
Os 42 mandados de busca e apreensão, autorizados pelo ministro Dias Toffoli, tiveram como alvos endereços ligados a Daniel Vorcaro e a familiares em São Paulo, incluindo a Avenida Faria Lima, além de locais na Bahia, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro.
A defesa de Vorcaro afirma que ele tem colaborado de forma integral com as autoridades, reforçando o interesse no esclarecimento completo dos fatos e no encerramento célere do inquérito.
Por que o caso segue no centro das atenções?
O caso Banco Master segue no centro do noticiário por envolver grandes volumes de recursos, investidores protegidos pelo FGC, suspeitas de fraudes financeiras e disputas entre órgãos de controle. A liquidação do banco encerrou suas atividades, mas não encerrou o processo.
O avanço das investigações também levou o caso para o debate dentro do governo federal. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, elogiou a atuação do Banco Central no processo de liquidação da instituição e afirmou que as apurações em curso podem revelar a maior fraude bancária da história do país. Segundo ele, o Brasil precisa “conhecer a verdade” sobre o caso, com garantia de espaço para a defesa, mas com firmeza na proteção do interesse público.

O ministro defendeu a condução técnica da autoridade monetária, sob comando de Gabriel Galípolo, e ressaltou que os pagamentos aos investidores contam com o apoio do Fundo Garantidor de Créditos, que também é capitalizado por bancos públicos, o que amplia o interesse público no desfecho do caso.
Com investigações em andamento, bens bloqueados e diligências técnicas ainda em curso, o episódio permanece aberto e deve continuar gerando novos desdobramentos nos próximos meses.


