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Brasileiro trabalha 40 horas por semana: o que isso diz sobre produtividade e qualidade de vida?

Um levantamento feito pela FGV Ibre (instituto de pesquisa da Fundação Getulio Vargas) que cobre cerca de 97% da população global mostrou que trabalhadores ao redor do mundo dedicaram, em média, 42,7 horas semanais ao trabalho remunerado. O estudo foi analisado pelo economista Daniel Duque com base no banco de dados internacional organizado por Amory Gethin e Emmanuel Saez, disponível desde novembro de 2025.

No mesmo período, os brasileiros registraram 40,1 horas semanais de trabalho, número próximo da média mundial, o que reacendeu o debate sobre jornada, produtividade e qualidade de vida no país.

Os dados encontrados no banco mostram que a quantidade de horas trabalhadas está relacionada a fatores como renda per capita, carga tributária, transferências sociais e perfil demográfico de cada país. Ou seja, trabalhar mais horas não significa, necessariamente, ganhar mais ou ter maior produtividade.

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Trabalhadores brasileiros dedicam em média 40,1 horas semanais ao emprego, sem contar deslocamento e trabalho doméstico | Foto: Reprodução/Canva
Trabalhadores brasileiros dedicam em média 40,1 horas semanais ao emprego, sem contar deslocamento e trabalho doméstico | Foto: Reprodução/Canva

Posicionamento brasileiro varia conforme os critérios

Ao comparar o país com os outros 86 países que possuem mais de duas décadas de dados disponíveis, o Brasil ocupa a 38ª posição em horas trabalhadas. Contudo, a classificação tem alterações quando outros fatores começam a ser analisados.

Quando se inclui no cálculo a quantidade de horas trabalhadas esperadas em cada país, de acordo com o nível de produtividade e estrutura demográfica, a posição dos brasileiros recua. O país passa a estar posicionado na 60ª posição entre 85 nações, com trabalhadores a partir de 15 anos.

Outro ponto observado que faz o Brasil migrar de posição, indo para a 53ª posição entre 76 países, é a relação com impostos e transferências, como aposentadorias e benefícios de renda mínima.

Produtividade e qualidade de vida entram na discussão

Para Rodrigo de Aquino, especialista em felicidade corporativa, discutir horas trabalhadas sem olhar a produtividade pode gerar conclusões erradas. Segundo Aquino, o Brasil convive com produtividade média menor que a de economias centrais, desigualdade elevada e infraestrutura urbana que consome tempo do trabalhador.

“A média de 40,1 horas semanais não inclui deslocamento — que, nas grandes regiões metropolitanas, pode ultrapassar uma hora por trajeto, segundo a PNAD Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua) — nem o trabalho doméstico e de cuidado, que recai desproporcionalmente sobre as mulheres. O volume oficial de horas não coincide com a experiência real da jornada”, explica o especialista.

Na prática, economias mais produtivas costumam reduzir a jornada sem perda de renda, enquanto países com menor produtividade precisam de mais horas para gerar o mesmo resultado econômico. Por isso, o debate sobre tempo de trabalho no Brasil está ligado não apenas à jornada, mas também à qualidade dos empregos, ao transporte urbano e ao crescimento da economia.

Qual é o impacto econômico direto das horas trabalhadas?

A quantidade de horas trabalhadas tem efeito direto sobre a renda, produtividade e crescimento econômico. No caso de países onde as pessoas trabalham muitas horas, mas com baixa produtividade, o resultado costuma ser visto em salários menores, menor capacidade de consumo e crescimento econômico mais lento. Já economias que conseguem produzir mais em menos tempo tendem a pagar salários maiores e gerar melhor qualidade de vida.

No caso do Brasil, a média de 40,1 horas semanais indica que o país não trabalha muito menos que o resto do mundo, mas ainda produz menos por hora do que economias desenvolvidas. Isso significa que o trabalhador precisa dedicar mais tempo para gerar a mesma renda, o que limita a capacidade de poupança, investimento e consumo das famílias.

Ao realizar uma análise a longo prazo, aumentar a produtividade é o que permite reduzir jornada sem perda de salário. Países que investiram em educação, tecnologia e infraestrutura conseguiram crescer pagando melhor seus trabalhadores. Para o Brasil, isso significa que o debate sobre horas trabalhadas está ligado a temas como qualificação profissional, transporte público, digitalização das empresas e políticas de emprego.

“Uma sociedade madura não é aquela que mobiliza mais horas, mas aquela que consegue produzir com eficiência, distribuir com justiça e preservar o tempo de viver”, afirma o especialista. Ele explica que a nova NR1, que funciona como a “Constituição” da segurança do trabalho no Brasil, marca um passo importante para o país.

Na prática, essa norma dita as regras básicas que toda empresa deve seguir para proteger quem trabalha. Com a atualização, a NR1 deixa de focar apenas em papelada e passa a exigir que as empresas olhem para o dia a dia real: ela deixa claro que o estresse, o esgotamento e a ansiedade não são “frescura” ou fraqueza do funcionário, mas sim sinais de que a organização do trabalho está doente. No fim das contas, a norma obriga o olhar para o ser humano, tratando a saúde mental com a mesma seriedade que um risco de acidente físico.

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