A economia registra números. A sociedade sente consequências
Basta caminhar pelos centros comerciais das cidades brasileiras. O que se vê não são gráficos, mas vitrines vazias, imóveis fechados e um número crescente de placas de “aluga-se”. Pequenos comerciantes, que durante décadas sustentaram suas famílias, conheciam seus clientes pelo nome e movimentavam a economia local, estão desaparecendo silenciosamente. Essa realidade dificilmente aparece com a mesma intensidade nas estatísticas.
Ao mesmo tempo, a inteligência artificial (IA) e a automação transformam o mercado de trabalho em uma velocidade inédita. Profissões desaparecem, funções são substituídas por algoritmos e milhares de trabalhadores, especialmente aqueles com mais de cinquenta anos, encontram enormes dificuldades para voltar ao mercado. A experiência, que sempre foi um patrimônio profissional, passou a disputar espaço com a capacidade de adaptação tecnológica.

O país vive uma revolução produtiva para a qual ainda não preparou sua força de trabalho. Outro indicador merece reflexão. O endividamento das famílias brasileiras alcança níveis históricos. Milhões de lares convivem com prestações, cartões de crédito, financiamentos e empréstimos que comprometem parcela significativa da renda mensal. A inadimplência cresce e deixa de ser um problema individual para se transformar em um desafio econômico e social.
Os números oficiais podem apontar crescimento econômico, mas dificilmente conseguem medir a angústia de quem perdeu o negócio, a insegurança de quem procura emprego há meses ou o desânimo de quem trabalha mais e percebe que seu poder de compra diminui ano após ano.
Existe ainda um fenômeno recente que merece atenção. As plataformas de apostas esportivas expandem seus negócios em ritmo acelerado e movimentam bilhões de reais. Recursos que poderiam fortalecer o comércio, a indústria e os serviços acabam migrando para um setor cuja riqueza pouco contribui para a geração de empregos na mesma proporção em que absorve renda das famílias.
O Brasil envelhece rapidamente. A expectativa de vida aumenta. A população economicamente ativa cresce em ritmo menor. O número de aposentados avança enquanto a necessidade de trabalhadores altamente qualificados se intensifica. Sem investimento maciço em educação continuada, qualificação profissional e atualização tecnológica, milhões de brasileiros correm o risco de se tornarem economicamente invisíveis.


