Desde março, a Apple tem adotado uma estratégia ousada para manter a competitividade no mercado norte-americano: fretou aviões cargueiros para transportar cerca de 600 toneladas de iPhones da Índia para os Estados Unidos.
O movimento, que representa aproximadamente 1,5 milhão de unidades do smartphone, tem como objetivo contornar as pesadas tarifas de importação impostas pelo presidente dos EUA, Donald Trump. A informação foi revelada por fontes ouvidas pela Reuters, incluindo um funcionário do governo indiano.

A intensificação dos envios começou exatamente quando as novas tarifas criadas pelo governo Trump entraram em vigor. Seis jatos cargueiros, cada um com capacidade de 100 toneladas, partiram da Índia para os EUA nos últimos meses, com um deles realizando o trajeto já nesta semana. A medida reflete a busca da Apple por alternativas rápidas e eficazes para escapar das sobretaxas aplicadas principalmente sobre produtos oriundos da China.
De acordo com as medições da Reuters, o peso embalado de um iPhone 14, incluindo o cabo de carregamento, é de cerca de 350 gramas. Dessa forma, a carga total enviada pela Apple corresponde a aproximadamente 1,5 milhão de unidades do dispositivo.
Embora a Apple e o Ministério da Aviação da Índia não tenham comentado o assunto, as ações da empresa evidenciam uma resposta direta ao cenário comercial cada vez mais desafiador imposto por Trump.
A pressão das tarifas e o risco de alta de preços
Especialistas alertam para a possibilidade de aumento nos preços dos iPhones nos EUA, devido à forte dependência da Apple das importações chinesas. A China, principal centro de fabricação dos smartphones da marca, está agora sujeita a uma tarifa altíssima de 125%. Em contraste, a Índia aplicava um imposto de importação de 26% na época dos embarques.
Em uma jogada estratégica, Trump suspendeu temporariamente as tarifas de importação para todos os países — exceto a China — por 90 dias. A decisão abriu uma janela de oportunidade para a Apple escoar sua produção indiana para os EUA antes que novas medidas restritivas pudessem entrar em vigor.
Segundo fontes ligadas à operação logística da Apple, a empresa estava determinada a “vencer a tarifa” enviando os aparelhos da Índia por via aérea, mesmo que isso implicasse em custos operacionais mais elevados.
“Corredor verde” acelera exportações na Índia
Para viabilizar esse esforço logístico, a Apple negociou com as autoridades aeroportuárias indianas a implementação de um “corredor verde” no aeroporto de Chennai, no estado de Tamil Nadu. A medida reduziu de 30 para apenas 6 horas o tempo necessário para a liberação alfandegária das cargas. Esse modelo já era utilizado pela empresa em alguns aeroportos chineses e foi replicado com sucesso na Índia.
O processo para estabelecer o desembaraço acelerado levou cerca de oito meses de planejamento. Segundo autoridades indianas, o próprio governo do primeiro-ministro Narendra Modi interveio para facilitar as operações da Apple, sinalizando o interesse da Índia em se consolidar como um polo estratégico para a gigante da tecnologia.
Índia ganha espaço como hub de produção
À medida que a Apple busca reduzir sua dependência da China, a Índia vai ganhando um papel cada vez mais relevante na cadeia de suprimentos da companhia. A fábrica da Foxconn em Chennai, a maior da Apple no país, tem operado inclusive aos domingos para atender à crescente demanda. Em 2023, a planta produziu cerca de 20 milhões de iPhones, incluindo os modelos mais recentes iPhone 15 e 16.
Além da Foxconn, a Tata — outro grande parceiro da Apple — também contribui para a expansão da produção, com três fábricas em operação e outras duas em construção.
De acordo com dados da Counterpoint Research, cerca de 20% das importações de iPhones para os EUA já vêm da Índia, enquanto o restante ainda é proveniente da China.
Expansão das remessas e impacto econômico
As exportações da Foxconn da Índia para os EUA apresentaram um salto expressivo em 2025. Em janeiro, as remessas somaram US$ 770 milhões (R$ 4,535 bilhões), e em fevereiro, US$ 643 milhões (R$ 3,788 bilhões). Nos quatro meses anteriores, o valor médio das exportações girava entre US$ 110 milhões (R$ 647,9 milhões) e US$ 331 milhões (R$ 1,949 bilhão).
Mais de 85% dessas remessas tiveram como destino cidades-chave dos Estados Unidos, como Chicago, Los Angeles, Nova York e São Francisco, reforçando o peso crescente da Índia na cadeia global de suprimentos da Apple.
Com a aceleração da produção e exportação, a Apple não apenas enfrenta o desafio das tarifas com agilidade, mas também avança na diversificação de sua base de fabricação, preparando-se para um futuro menos dependente da China e mais integrado com parceiros estratégicos como a Índia.
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