Uma nova campanha da instituição Nós Por Elas, lançada no Dia do Trabalho, em 1º de maio de 2025, está chamando atenção para uma realidade silenciosa e profundamente enraizada no cotidiano de milhões de brasileiras: o trabalho invisível.
Criada pela agência Calia, a ação mostra como o acúmulo de funções domésticas e de cuidado, geralmente não remuneradas, impacta diretamente o desenvolvimento profissional, a saúde mental e a renda das mulheres.
De acordo com dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT), as mulheres dedicam, em média, três vezes mais tempo às tarefas domésticas e de cuidado do que os homens. Essa sobrecarga, embora muitas vezes tratada como “natural” ou “rotineira”, tem um peso significativo na estrutura econômica do país e nos índices de produtividade da força de trabalho feminina.

O fim do expediente não é o fim do trabalho
Esse é o mote da campanha “Trabalho Invisível”, composta por três filmes de 30 segundos cada. As peças audiovisuais retratam mulheres em diferentes cenários: uma executiva que volta para casa e precisa cuidar dos filhos; uma professora que termina o turno na escola e começa o expediente doméstico; e uma diarista que, após o trabalho, ainda precisa administrar a rotina do próprio lar.
A campanha pretende provocar uma reflexão direta: quantas horas do dia sobram para essas mulheres cuidarem de si? E mais — o quanto essa jornada dupla ou até tripla de trabalho limita suas oportunidades de crescimento profissional e geração de renda?
Prejuízo financeiro e social
Apesar de não aparecerem nos holerites ou nos dados oficiais de produtividade, as horas dedicadas a cuidar da casa, dos filhos, de pessoas idosas ou doentes têm valor econômico. Um estudo publicado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) estimou que, se remunerado, o trabalho doméstico das mulheres brasileiras movimentaria mais de R$ 1,2 trilhão por ano, o equivalente à cerca de 11% do PIB nacional.
Além disso, a falta de divisão igualitária das tarefas contribui para desigualdades salariais. Mulheres com filhos ganham, em média, 24% menos do que homens com filhos, segundo levantamento da FGV Social. Já as mulheres negras, que enfrentam uma carga ainda mais pesada, são as mais prejudicadas, com rendimentos até 60% inferiores aos dos homens brancos.
Efeitos na saúde mental e no futuro das mulheres
O impacto não é apenas financeiro. Diversos estudos apontam que o acúmulo de funções — trabalho formal, tarefas domésticas, cuidados com a família — tem gerado níveis elevados de estresse, ansiedade e esgotamento mental entre as mulheres. Isso compromete a qualidade de vida, reduz a produtividade e afeta até mesmo o desempenho escolar dos filhos.
Com menos tempo para investir na carreira, muitas mulheres acabam estagnando profissionalmente ou abandonando o mercado formal. Segundo a PNAD Contínua (IBGE), cerca de 8,5 milhões de mulheres estão fora do mercado de trabalho porque precisam cuidar de alguém ou da casa — número quatro vezes maior do que o de homens na mesma condição.
Um problema que começa dentro de casa
A instituição Nós Por Elas reforça que, para haver uma transformação efetiva, é preciso mudar a cultura doméstica. “A mudança não é só política ou institucional. Ela começa no cotidiano, com a divisão justa das tarefas dentro de casa”, afirma a fundadora da ONG, Juliana Monteiro.
Para isso, a campanha “Trabalho Invisível” propõe não apenas a conscientização, mas também a ação prática: desde a renegociação da rotina doméstica até a implementação de políticas públicas como creches públicas em tempo integral, incentivos fiscais para empresas que promovem a equidade de gênero e a valorização do trabalho de cuidado.
Leia também: Mulheres ainda ganham 20% menos que homens no Brasil
Ações que geram impacto econômico
Especialistas em finanças apontam que reduzir a desigualdade de gênero nas tarefas domésticas não é só uma questão de justiça social, mas também de eficiência econômica. Economias que promovem maior participação feminina no mercado de trabalho tendem a crescer mais, de forma sustentável. Um relatório do McKinsey Global Institute estima que a equidade de gênero poderia adicionar R$ 4 trilhões à economia latino-americana até 2030.
A campanha da instituição Nós Por Elas surge como uma ferramenta de educação e mobilização social, e se soma a um movimento global por mais reconhecimento e justiça para as mulheres que sustentam a base das famílias — e da economia — com um trabalho que, até hoje, permanece invisível aos olhos de muitos.
*Entrevista concedida ao Meio&Mensagem


