Depois de um 2024 de otimismo e crescimento, a construção civil brasileira enfrenta 2025 com mais cautela. Empresários do setor estão mais pessimistas, diante de desafios como acesso restrito a crédito, juros elevados e incertezas econômicas. Ainda assim, o segmento mantém apostas firmes em nichos como loteamentos e habitação popular, além de um olhar mais atento para as regiões Norte e Centro-Oeste do país.

Segundo uma pesquisa conduzida entre fevereiro e abril pelo Ecossistema Sienge em parceria com a Prospecta, publicada pela revista Exame, 38% dos empresários entrevistados avaliam que o mercado está em declínio ou recessão. Esse percentual mais que triplicou em relação a 2024, quando apenas 12% tinham essa visão negativa.
Ao mesmo tempo, os que acreditam em um crescimento acelerado diminuíram de 14% para 9%. A sondagem ouviu 137 empresários de diferentes áreas da construção civil, e os resultados refletem um cenário mais desafiador.
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Loteamentos e habitação popular seguem firmes
Apesar do ambiente incerto, nem tudo é retração. Os nichos de loteamentos e habitação popular mostram força e seguem entre os principais focos de expansão do setor. O programa Minha Casa, Minha Vida, por exemplo, continua impulsionando obras em várias regiões, oferecendo segurança e previsibilidade para empresas que atuam com moradia de interesse social.
Loteamentos, em especial, se destacam. De acordo com Gabriela Torres, gerente de inteligência estratégica do Ecossistema Sienge, esse modelo se adapta melhor ao cenário atual por exigir menor capital inicial e ter flexibilidade operacional. Além disso, muitas iniciativas estão alinhadas com programas habitacionais, o que garante algum nível de estabilidade financeira.
Acesso ao crédito é o principal entrave em construções
Para 20% dos empresários ouvidos, o maior obstáculo neste momento é o acesso a recursos (funding). Outros 17% apontam os juros altos como um desafio, enquanto 7% citam a restrição ao crédito como impeditivo para novos projetos.
A combinação de taxas elevadas e menor apetite dos bancos para emprestar afeta diretamente a capacidade de execução de novos empreendimentos, especialmente os de médio e grande porte. Com isso, muitos empresários têm reavaliado seus planos e buscado nichos mais resilientes e de menor risco.
Investimento em construção é contínuo, mas de forma regionalizada
Apesar do pessimismo, o desejo de investir continua forte: 76% dos entrevistados disseram que pretendem realizar novos aportes ao longo de 2025. No entanto, a estratégia está mudando.
A região Sudeste ainda lidera o interesse dos empresários, com 32% da preferência, mas perdeu espaço em relação a 2024 — foram 7 pontos percentuais a menos. Em contrapartida, o Norte e o Centro-Oeste passaram a atrair mais atenção. O Norte ganhou 4 pontos percentuais de preferência, e o Centro-Oeste, 3.
Segundo Gabriela Torres, essa mudança aponta para uma tentativa de diversificação. “A saturação dos grandes centros e os custos elevados nessas áreas fazem os empresários olharem para novos territórios com mais potencial de valorização”, explica.
Centro-Oeste e Norte ganham protagonismo
O Centro-Oeste vem se beneficiando diretamente do crescimento do agronegócio, que demanda novas infraestruturas urbanas, logísticas e de moradia. Já o Norte ainda apresenta lacunas significativas em desenvolvimento urbano, o que abre espaço para novos empreendimentos imobiliários e de infraestrutura.
Essas regiões, que historicamente foram menos visadas pelos grandes investidores, começam agora a se tornar estratégicas. A aposta em áreas menos saturadas também representa uma resposta ao momento de insegurança macroeconômica: diversificar a geografia de atuação pode ser uma forma de mitigar riscos e garantir novos mercados.
Perspectivas para o restante do ano
O comportamento mais cauteloso do setor não significa paralisia. Pelo contrário: os empresários estão mais seletivos, focando em projetos com maior chance de retorno e em regiões com demanda reprimida. O foco em habitação de baixa renda, impulsionado por políticas públicas, pode ser o diferencial que ajudará o setor a atravessar o ano com resultados positivos.
A expectativa é que, caso o cenário econômico estabilize e o crédito volte a circular com mais facilidade, o setor possa retomar seu ritmo de crescimento. Até lá, os empreendedores da construção civil devem seguir apostando em resiliência, planejamento e adaptação.
*Com informações exclusivas publicadas pela Exame


