Durante décadas, a manufatura foi o símbolo da classe trabalhadora nos Estados Unidos e em outros países industrializados. Oferecendo salários atrativos, estabilidade e sindicalização, os empregos nas fábricas representavam o sonho americano.
No entanto, a automação, a globalização e as mudanças na estrutura econômica transformaram radicalmente esse cenário. Hoje, a indústria manufatureira emprega menos de 10% da força de trabalho americana, e menos de 4% dos trabalhadores atuam diretamente em linhas de produção.
A mesma tendência ocorre em países como Alemanha, Japão, Coreia do Sul e até na China, que eliminou mais de 20 milhões de empregos industriais entre 2013 e 2023, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI).
Esse movimento é considerado “o resultado natural do desenvolvimento econômico bem-sucedido”, pois à medida que as economias crescem, a produção por trabalhador aumenta, a renda cresce e o consumo se volta para serviços.

A nova cara do trabalho para quem não tem diploma
Com as fábricas cada vez mais automatizadas e exigindo qualificação técnica, os empregos tradicionais de colarinho azul deram lugar a funções mais dispersas e menos centralizadas geograficamente, como eletricistas, técnicos de manutenção, mecânicos e trabalhadores da segurança pública. De acordo com The Economist, mais de 7 milhões de americanos atuam nessas funções, geralmente com remuneração superior à de operários industriais.
Por exemplo, um técnico de sistemas de aquecimento e ventilação (HVAC) nos EUA ganha em média US$ 25 por hora, o que equivale à cerca de R$ 133 por hora (considerando o dólar a R$ 5,32 em 17/06/2025). Além disso, a sindicalização continua forte nessas áreas, garantindo melhores condições de trabalho.
Essas funções exigem habilidades técnicas, mas não necessariamente um diploma universitário. Isso abre oportunidades para quem concluiu apenas o ensino médio, mas busca uma carreira estável. A expectativa é que a demanda por esses profissionais cresça 5% na próxima década, segundo projeções oficiais do governo americano.
Por que os empregos nas fábricas não vão voltar?
Mesmo com o esforço de reindustrialização de governos como os de Joe Biden e Donald Trump, que pregam o “Made in America”, a estrutura produtiva mudou. Hoje, fabricar um produto envolve menos mão de obra e mais tecnologia. Em termos reais, os Estados Unidos produzem mais do que na década de 1980, mas com muito menos pessoas envolvidas. O Cato Institute, think tank liberal, aponta que as fábricas americanas isoladamente formariam a oitava maior economia do mundo.
Uma simulação da Universidade de Harvard revela que, mesmo que os EUA eliminassem seu déficit de comércio de bens de US$ 1,2 trilhão (cerca de R$ 6,38 trilhões), isso geraria apenas cerca de 3 milhões de novos empregos, metade no chão de fábrica. O custo estimado seria de US$ 200 mil por emprego salvo, ou mais de R$ 1 milhão por vaga criada, o que é considerado insustentável do ponto de vista econômico.
Além disso, os salários industriais deixaram de ser atraentes como antes. Na década de 1980, trabalhadores de fábricas ganhavam cerca de 10% a mais do que seus pares em outros setores. Hoje, esse “prêmio salarial” praticamente desapareceu, sobretudo para quem não tem ensino superior. A produtividade, que antes impulsionava aumentos salariais, agora cresce mais rapidamente no setor de serviços.
Leia também: Banco Central vai rastrear dinheiro de golpe no Pix
Empregos do futuro estão nos cuidados e nos serviços
As categorias que mais devem crescer para trabalhadores sem diploma são ligadas à saúde e ao cuidado pessoal, como auxiliares de enfermagem e cuidadores de idosos e crianças. Segundo dados do Bureau of Labor Statistics, esses setores devem crescer entre 6% e 15% na próxima década. Porém, a remuneração é consideravelmente inferior à de funções técnicas e industriais.
Nesse contexto, a proposta de especialistas como Dani Rodrik, de Harvard, é clara: é preciso aumentar a produtividade dos empregos que realmente estão crescendo. Isso envolve investir em tecnologias como inteligência artificial, que pode apoiar diagnósticos médicos, gestão de medicamentos e automatização de processos.
O Brasil nesse cenário
No Brasil, essa discussão ganha relevância diante da crescente automação de setores industriais e da estagnação da indústria de transformação. Segundo o IBGE, o setor industrial representa apenas 17,8% do PIB brasileiro em 2024, contra quase 30% na década de 1980. Os programas de requalificação profissional, como o Pronatec e o Senai, tornam-se cada vez mais importantes para preparar a população para essas novas demandas do mercado de trabalho.
O setor de serviços, especialmente o de cuidados e técnicos especializados, tende a ser o novo motor da empregabilidade no país. A tendência é semelhante à observada nos Estados Unidos: os empregos não desapareceram, mas mudaram de endereço.
O modelo clássico de emprego industrial já não é mais o padrão de estabilidade para a classe trabalhadora. Os empregos do futuro estão mais ligados à tecnologia, serviços especializados e cuidados pessoais. Para acompanhar essa transição, é essencial investir em educação técnica, qualificação contínua e políticas públicas que aumentem a produtividade dos setores em ascensão. A promessa de recuperar o passado industrial não deve obscurecer o olhar sobre onde realmente estão as oportunidades de hoje.


