O Banco Central (BC) está desenvolvendo uma nova ferramenta para combater os golpes envolvendo o Pix, sistema de transferências instantâneas criado em 2020. A iniciativa vai aprimorar o chamado Mecanismo Especial de Devolução (MED), criado em 2021 para permitir que usuários vítimas de fraudes tentem recuperar o dinheiro enviado de forma indevida.
Desde a criação do Pix, os golpes financeiros cresceram de forma preocupante. Entre 2021 e 2024, foram feitos quase 5 milhões de pedidos de devolução por meio do MED, totalizando R$ 6,98 bilhões em transações contestadas. No entanto, apenas 31% desses pedidos foram aceitos, e menos de 7% do valor total (R$ 459 milhões) foi de fato devolvido.

A principal falha está no funcionamento atual do MED, que só consegue rastrear o dinheiro até a primeira conta que o recebeu. Se o valor foi transferido rapidamente para outras contas — como costuma acontecer em golpes —, o sistema não consegue mais recuperá-lo. Em 2024, 86% dos pedidos negados foram justamente porque o dinheiro já não estava mais disponível na conta original.
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Rastreio do Banco Central será mais profundo e com autoatendimento
Para resolver esse problema, o Banco Central lançará uma nova versão da ferramenta, apelidada informalmente de “MED 2.0”, com previsão de entrada em funcionamento no primeiro trimestre de 2026. Com ela, será possível rastrear o dinheiro por até cinco níveis de transferência, acompanhando a movimentação mesmo quando o valor passa por várias contas.
Essa mudança é importante porque muitos golpes utilizam as chamadas “contas laranja” — contas de terceiros, reais ou falsas, usadas apenas para receber e repassar o dinheiro rapidamente, dificultando o bloqueio e rastreamento. Com o rastreio mais amplo, será mais difícil para os criminosos esconder o caminho do dinheiro dentro da rede bancária tradicional.
Outra novidade importante será a possibilidade de o próprio usuário acionar o pedido de contestação diretamente pelo aplicativo do banco. Hoje, isso só pode ser feito pela instituição financeira, após a vítima entrar em contato. A nova versão vai permitir que o cliente selecione o Pix suspeito, informe o tipo de golpe sofrido (como “fui enganado por um golpista” ou “alguém usou minha senha”) e ainda descreva a situação em um campo de texto.
Assim que o pedido for feito, o sistema vai gerar um protocolo com data e prazo para resposta, além de informar se ainda existe dinheiro na conta que recebeu o valor. Essa agilidade é essencial, já que os golpes muitas vezes envolvem a movimentação rápida do dinheiro. Quanto mais cedo a contestação for feita, maiores as chances de bloqueio e devolução.
Alguns bancos, como o Bradesco, já estão começando a oferecer versões simplificadas desse autoatendimento. Mas a obrigação para todos os participantes do Pix só começa em 1º de outubro de 2025, conforme regra do BC.
Apesar dos avanços, o próprio Banco Central reconhece que nem todos os valores poderão ser recuperados. Em muitos casos, o dinheiro é transferido para fora do sistema bancário — seja em espécie, seja convertido em criptomoedas — o que impede qualquer devolução. Ainda assim, com o novo sistema, o BC estima que até 80% dos casos poderão ser resolvidos com sucesso.
Enquanto a nova ferramenta não entra em operação, especialistas recomendam que os usuários tomem cuidado redobrado ao usar o Pix: desconfie de pedidos urgentes, sempre confira os dados antes de transferir e, se cair em um golpe, registre o pedido de devolução o mais rápido possível.
A nova versão do MED é um passo importante na proteção dos usuários do Pix. Ela mostra que, apesar da sofisticação dos golpes, a tecnologia também pode ser usada para proteger e devolver o dinheiro a quem foi prejudicado.


