Conseguir um emprego já é uma vitória para milhões de brasileiros. No entanto, após a contratação, surge um desafio talvez maior: consolidar a carreira. A sensação de estar estagnado, sem perspectiva de aumento ou promoção, é comum em um mercado de trabalho marcado pela alta rotatividade e pela informalidade.
A dificuldade não é apenas uma percepção. O cenário econômico e as mudanças rápidas na tecnologia criaram um ambiente onde permanecer relevante exige esforço contínuo. Mas o que exatamente torna a consolidação de carreira tão complexa hoje e como o trabalhador pode tentar se destacar?
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O cenário do emprego no Brasil
Para entender a dificuldade em “firmar o pé” em uma empresa, primeiro é preciso olhar os números gerais do país. Segundo os dados mais recentes da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a taxa de desocupação no Brasil tem rondado os 7,5%.
Embora a taxa venha caindo, ela ainda representa mais de 8 milhões de pessoas procurando ativamente por uma vaga. Essa alta disponibilidade de mão de obra gera uma concorrência acirrada, o que, na prática, dá às empresas mais poder de escolha e reduz a pressão por aumentos salariais ou planos de carreira robustos.
O outro lado da moeda é a informalidade. O mesmo IBGE aponta que a taxa de informalidade está próxima de 39% da população ocupada. São quase 40 milhões de trabalhadores sem carteira assinada, atuando por conta própria ou em empregos sem garantias como férias, décimo terceiro ou FGTS. Para quem está na informalidade, o conceito de “consolidar carreira” é ainda mais distante, pois a prioridade é garantir a renda do próximo mês.
Mesmo para quem está empregado com carteira (CLT), o cenário é apertado. Dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho, mostram que o salário médio de admissão no Brasil tem ficado pouco acima dos R$ 2.100. Com um valor inicial baixo, a escalada para um salário que traga conforto financeiro se torna longa e difícil.
A “lacuna de habilidades” e a tecnologia
Um dos principais obstáculos para quem busca crescimento é a chamada “lacuna de habilidades”. As empresas relatam dificuldade em encontrar profissionais que possuam as competências que elas precisam, enquanto milhões de trabalhadores relatam que não encontram vagas para o que sabem fazer.
A tecnologia é o motor dessa mudança. Ferramentas de inteligência artificial, automação de processos e a digitalização forçada pela pandemia transformaram funções básicas. Cargos de atendimento ao cliente, por exemplo, hoje exigem que o funcionário saiba operar sistemas complexos de gestão (CRMs) e interagir com robôs de atendimento (chatbots), algo que não era pedido há cinco anos.
Essa transformação digital não afeta apenas o setor de tecnologia. No varejo, o vendedor precisa entender de vendas online (e-commerce). No transporte, o motorista usa aplicativos de logística. Na indústria, o operador de máquina lida com painéis digitais.
Essa necessidade de atualização constante pressiona o trabalhador, que muitas vezes não tem recursos ou tempo para se requalificar enquanto tenta manter seu emprego atual.
Quanto custa se qualificar?
A qualificação é apontada por especialistas como a principal saída para a estagnação. No entanto, ela tem um custo. Um curso técnico, que oferece uma formação rápida e focada no mercado, pode variar significativamente.
Instituições como o Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac) ou o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI) são referências. Um curso técnico de Administração no Senac, por exemplo, pode ter um custo total que gira em torno de R$ 4.000 a R$ 7.000, dependendo da região. Um curso mais curto, como o de Excel Avançado, fundamental para quase todas as áreas administrativas, pode custar entre R$ 400 e R$ 900.
Para quem não pode pagar, existem alternativas. O Programa Senac de Gratuidade (PSG) e programas do governo federal, como o Pronatec, oferecem vagas gratuitas em cursos técnicos e de qualificação profissional. A procura por essas vagas, contudo, é muito superior à oferta, exigindo que o candidato passe por processos seletivos concorridos.
Como se destacar além do currículo?
Diante de um cenário com tantos trabalhadores qualificados disponíveis, consultorias de recursos humanos, como PageGroup e Robert Half, apontam que o diferencial tem saído do currículo técnico e migrado para as “habilidades comportamentais” (ou “soft skills”).
Isso significa que, entre dois candidatos com a mesma formação técnica, a empresa tende a escolher aquele que demonstra melhor comunicação, capacidade de trabalhar em equipe, adaptabilidade a mudanças e, principalmente, proatividade.
A proatividade, no jargão corporativo, é a capacidade de “resolver problemas” sem esperar uma ordem direta. É o funcionário que identifica uma falha no processo e sugere uma melhoria, ou que se oferece para ajudar um colega que está sobrecarregado. Essa atitude é vista pelas lideranças como um sinal de engajamento e potencial de crescimento.
O peso do “networking” na prática
Por fim, um fator decisivo no mercado de trabalho brasileiro é a rede de contatos, o “networking”. Para as classes C e D, essa palavra pode soar distante, associada a eventos executivos. Na prática, porém, ela se traduz no “QI” (Quem Indica).
Estudos de consultorias de recrutamento mostram que uma grande porcentagem das vagas, especialmente as melhores, são preenchidas por indicação interna antes mesmo de serem anunciadas publicamente.
Manter um bom relacionamento com ex-colegas, chefes antigos e até mesmo clientes é uma forma de construir essa rede. Ser lembrado como um profissional “bom de serviço”, pontual e colaborativo, faz com que seu nome seja o primeiro a surgir quando uma oportunidade aparece.
O uso de plataformas digitais, como o LinkedIn, também se popularizou. Ter um perfil básico atualizado, mesmo para funções operacionais, funciona como um currículo online que pode ser encontrado por recrutadores.
O mercado atual exige que o trabalhador não apenas execute suas tarefas, mas também atue como um gestor da própria carreira, buscando ativamente qualificação, demonstrando habilidades comportamentais e construindo uma rede de contatos profissionais.


