O termo “career shrekking” deriva da ideia do ogro Shrek, significando a prática de aceitar cargos profissionais aquém do próprio potencial para evitar riscos emocionais, econômicos e reputacionais. A tendência se popularizou entre os jovens da Geração Z, preocupados com incertezas do mercado, medo da rejeição, da instabilidade ou do fracasso.
Para Müller Gomes, recrutador da consultoria Robert Half, o comportamento reflete uma busca por segurança em meio a um cenário de insegurança profissional. Já Marina Ferreira, sócia da Korn Ferry, afirma que muitos avaliam agora o impacto emocional de cada movimento profissional antes de arriscar uma transição. No “career shrekking”, a ambição não desaparece, mas fica em segundo plano diante do desejo de manter estabilidade.
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Por que as pessoas adotam essa estratégia
Uma das principais razões para o career shrekking aparece justamente quando o profissional está desempregado. Segundo Gomes, aqueles que aguardam uma recolocação acabam aceitando qualquer oportunidade, mesmo que abaixo de suas qualificações, por insegurança e urgência financeira. A oferta de emprego se torna menos uma escolha por crescimento e mais uma salvação.
Outros entrevistados apontam que a baixa autoestima e o medo de falhar influenciam a decisão. Um estudo publicado na Journal of Personality and Social Psychology, concluiu que pessoas com menor tendência a assumir riscos preferem funções mais seguras, mesmo que isso signifique abrir mão do reconhecimento ou de promoções.
Esse comportamento pode gerar uma falsa sensação de controle: aceitando menos, o trabalhador evita enfrentar os desafios mais complexos e a exposição que vem com eles. No entanto, especialistas alertam que essa segurança aparente pode minar a motivação e afetar o desempenho a longo prazo.
As consequências para a carreira
Uma das consequências mais graves do career shrekking é o chamado rust-out, quando a pessoa se sente enferrujada por não usar plenamente seus talentos. Gomes afirma que, em poucos meses, profissionais podem se sentir desmotivados ao perceber que podem dar mais, mas escolheram a estabilidade.
Esse desengajamento também afeta a empresa. Ao subutilizar talento, a companhia deixa de aproveitar o investimento em capacitação e, muitas vezes, enfrenta rotatividade, porque o trabalhador acaba saindo. Para a empresa, a vantagem parece imediata, um colaborador “conformado”, mas o preço pode ser alto em inovação e resultado.
Além disso, alguns líderes reforçam esse comportamento. Ferreira alertou que gestores menos experientes podem favorecer profissionais que “obedecem” em vez de desafiar a equipe. Isso cria um problema: ninguém evolui, nem a pessoa, nem o time, nem a companhia.
Por que esse caminho é arriscado emocionalmente
Embora o career shrekking pareça proteger contra o risco de falhar, reforça inseguranças profundas. Ao escolher funções facilmente seguras, o profissional internaliza a ideia de que não merece desafios e deixa de se arriscar. Com isso, a construção de autoestima profissional fica comprometida.
Com o tempo, até pequenas mudanças na empresa, como uma reestruturação ou uma nova liderança, podem se tornar fonte de ansiedade, porque a pessoa se acostumou a depender de seu próprio controle sobre a “zona de segurança”.
Segundo Ferreira, é importante transformar esse comportamento. Ela defende que, em vez de aceitar apenas por segurança, os profissionais devem cultivar curiosidade, aprender a lidar com riscos e desenvolver autoconfiança para crescer mesmo diante da incerteza.
Alternativas ao “career shrekking”
Para quem se identifica com a tendência, especialistas recomendam algumas estratégias para reverter esse movimento:
- Buscar feedback constante sobre seu desempenho e suas competências.
- Conversar com mentores ou coaches para explorar trajetórias mais desafiadoras.
- Investir em desenvolvimento pessoal fora do trabalho formal, cursos, networking, projetos paralelos, para aumentar a segurança interna.
- Estabelecer metas profissionais de curto e médio prazo que envolvam crescimento, mesmo que gradual.
- Discutir com a empresa oportunidades de crescimento ou mobilidade interna para funções com mais desafio.
Essas ações podem reduzir o medo de dar um passo maior e permitir que a carreira evolua com equilíbrio entre segurança e realização.
*Entrevistas concedidas a Forbes.


