A indústria brasileira encerrou 2025 sem nenhum mês do ano ter registrado otimismo entre os empresários do setor. É a primeira vez que isso acontece desde 2015, período marcado por uma forte recessão econômica no país. As informações fazem parte do Índice de Confiança do Empresário Industrial (Icei), divulgado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI).

Esse patamar indica pessimismo, já que a linha dos 50 pontos é usada como referência: acima disso, o empresário está confiante; abaixo, demonstra insegurança em relação ao cenário econômico.
Juros altos pesam no otimismo da indústria
Um dos principais fatores que explicam o clima negativo é o nível elevado da taxa básica de juros, a Selic. Ao longo do segundo semestre de 2025, a taxa permaneceu em 15% ao ano, encarecendo o crédito e dificultando investimentos, compras de máquinas e ampliação da produção.
Com juros altos, muitas empresas adiam planos de crescimento e passam a focar apenas na sobrevivência do negócio. Isso afeta especialmente setores que dependem de financiamento para produzir e vender, como a indústria de transformação.
Segundo analistas da CNI, o cenário atual se aproxima do observado há dez anos, quando o país enfrentava queda na atividade econômica, retração do consumo e aumento do desemprego.
Setores mais pessimistas no fim do ano
Os dados de dezembro mostram que alguns segmentos industriais encerraram 2025 com níveis de confiança bastante baixos. O setor de couros e artefatos de couro registrou 43 pontos, sendo o mais pessimista do período. Em seguida aparecem os biocombustíveis, com 44,2 pontos, o setor têxtil, com 45 pontos, e a metalurgia, que marcou 45,2 pontos.
Esses números indicam que os empresários desses setores enxergam mais dificuldades do que oportunidades no curto prazo. Entre as preocupações estão custos elevados, queda nas vendas, concorrência externa e dificuldades para exportar.
No caso da metalurgia, o cenário foi agravado por medidas adotadas no comércio internacional. Em 2025, o governo dos Estados Unidos, sob a gestão de Donald Trump, impôs uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros, atingindo diretamente as exportações do setor.
Concorrência estrangeira afeta indústria têxtil
Já a indústria têxtil enfrenta outro tipo de problema, como a entrada crescente de produtos asiáticos no mercado brasileiro, vendidos a preços muito mais baixos do que os praticados pela produção nacional.
Essa concorrência dificulta a venda dos produtos fabricados no Brasil, reduz margens de lucro e leva muitas empresas a operar no limite. Em alguns casos, fábricas diminuem turnos, cortam postos de trabalho ou até encerram atividades.
Segundo representantes do setor, a combinação de juros altos, custos elevados e concorrência externa cria um ambiente desfavorável para a recuperação da indústria têxtil.
Alguns setores seguem confiantes
Apesar do cenário geral negativo, nem todos os segmentos industriais fecharam o ano em pessimismo. O destaque positivo ficou com o setor de farmoquímicos e farmacêuticos, que alcançou 56,9 pontos em dezembro, mantendo-se acima da linha de confiança.
Na sequência aparecem os setores de extração de minerais não metálicos, com 53,9 pontos, impressão e reprodução, com 52,9 pontos, e o setor de bebidas, que fechou o ano com 51,9 pontos.
Esses segmentos foram beneficiados por uma demanda mais estável, seja do mercado interno, seja de áreas consideradas essenciais, como saúde e alimentação. Mesmo assim, a CNI alerta que o bom desempenho é pontual e não compensa o pessimismo espalhado pela maior parte da indústria.
Expectativa de melhora não se confirmou
Ao longo do segundo semestre, havia uma expectativa de que o Índice de Confiança pudesse apresentar uma leve recuperação no fim do ano, impulsionada por fatores sazonais, como aumento do consumo em datas comemorativas e ajustes de estoques.
No entanto, essa melhora não aconteceu. O Icei permaneceu abaixo de 50 pontos até dezembro, frustrando as projeções mais otimistas. Para a CNI, isso mostra que os problemas enfrentados pela indústria são estruturais, e não apenas pontuais.
Desafio para 2026
O resultado de 2025 acende um alerta para o próximo ano, já que, sem redução consistente dos juros e com incertezas no cenário internacional, a indústria brasileira entra em 2026 com cautela.
A CNI defende medidas que estimulem o investimento produtivo, facilitem o acesso ao crédito e fortaleçam a indústria nacional frente à concorrência externa. Caso contrário, o setor pode continuar operando em ritmo lento, com impacto direto sobre o emprego e a renda no país.


