A primeira classe, considerada por anos um produto em retração, voltou ao centro das estratégias das companhias aéreas internacionais. A alta demanda por viagens de alto padrão tem impulsionado investimentos em cabines que se aproximam do padrão de hotéis cinco estrelas.
Enquanto empresas aéreas dos Estados Unidos reduziram a oferta de primeira classe em favor da executiva, grupos europeus e asiáticos avançam no sentido oposto. O foco está em passageiros de alta renda dispostos a pagar valores elevados por conforto, privacidade e serviços personalizados, mesmo em um cenário global de custos operacionais mais altos.
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Air France aposta em experiência completa
A Air France apresentou sua nova suíte La Première, que estreou em abril de 2025 em aeronaves de Boeing 777-300ER. A implementação total da cabine está prevista para ser concluída até o fim de 2026. Atualmente, o produto está disponível em voos selecionados entre Paris e Los Angeles, além de rotas para Nova York e Cingapura.
A nova configuração oferece cinco janelas por suíte, duas telas de entretenimento, um assento e uma chaise longue separados. Materiais como couro integral, lã e tweed compõem o ambiente, enquanto cortinas do piso ao teto garantem privacidade total.
Segundo Benjamin Smith, CEO do grupo Air France-KLM, a proposta representa a expressão máxima da viagem aérea. A experiência começa ainda em solo, com serviço de concierge, transporte na pista em veículos da Porsche no aeroporto Paris Charles de Gaulle, tratamentos faciais de 30 minutos no lounge e apoio dedicado nos trâmites de imigração.
Chefs estrelados e marcas de moda
Na nova La Première, a Air France passou a oferecer menus assinados por chefs premiados, como Dominique Crenn e Daniel Boulud. Além da gastronomia, os passageiros recebem pijamas de algodão desenvolvidos pela marca francesa Jacquemus. A estratégia busca associar a experiência de voo a referências reconhecidas do luxo europeu.
Esses serviços elevam o custo operacional da cabine, mas reforçam o posicionamento da companhia em um segmento onde o preço da passagem pode superar facilmente dezenas de milhares de reais por trecho, dependendo da rota e da antecedência da compra.
Lufthansa investe em personalização
A alemã Lufthansa lançou a primeira classe Allegris em aeronaves Airbus A350-900 baseadas em Munique. A cabine conta com quatro assentos e três suítes, sendo uma central para duas pessoas, chamada Suite Plus.
O diferencial está no alto nível de personalização. O passageiro controla aquecimento e resfriamento do assento, iluminação ambiente e demais ajustes por meio de um iPad. A empresa informou que mais aeronaves receberão a nova configuração nos próximos anos, ampliando a oferta do produto.
Tecnologia e espaço ampliado na Japan Airlines
A Japan Airlines introduziu uma nova primeira classe em seus Airbus A350 configurados para longas distâncias. A cabine possui uma porta de 62 polegadas e oferece mais de 100% de espaço adicional em comparação com a versão anterior.
Outro destaque é o sistema de áudio. Passageiros podem optar por fones Sony via Bluetooth ou utilizar alto-falantes embutidos no apoio de cabeça, recurso inédito na aviação comercial. O primeiro A350 com essa configuração entrou em operação em 2024 e deve se tornar o padrão da companhia em rotas internacionais, incluindo voos entre os Estados Unidos e Tóquio.
Bilhões em investimentos até 2027
Outras companhias já anunciaram planos para os próximos anos. A Singapore Airlines confirmou uma renovação de cabine avaliada em US$ 800 milhões, valor equivalente à cerca de R$ 4,2 bilhões considerando a cotação média de R$ 5,25 por dólar, referência utilizada em projeções econômicas recentes. O projeto inclui um novo assento de primeira classe e a ampliação da oferta em rotas ultralongas, como Nova York e Cingapura, com apresentação prevista para 2026.
A British Airways também prepara uma nova cabine de primeira classe para seus Airbus A380 e futuros Boeing 777-9. Entre os recursos estão assentos mais largos e longos, telas de entretenimento de 32 polegadas, portas de privacidade e opção de refeição para duas pessoas. A estreia está programada para meados de 2026.
Voos mais longos do mundo
A australiana Qantas planeja iniciar, em 2027, os voos comerciais mais longos do mundo como parte do Project Sunrise. As rotas diretas devem ligar Sydney a Nova York, Paris e Londres em aeronaves Airbus A350-1000ULR.
Esses aviões contarão com uma cabine exclusiva de primeira classe composta por seis suítes. Cada uma terá áreas separadas para sentar e dormir, reforçando o conceito de miniapartamentos a bordo.
Já a Cathay Pacific anunciou que revelará sua próxima geração de primeira classe no futuro Boeing 777-9. Embora ainda haja poucas informações, a expectativa é que o produto siga o padrão das novas suítes Aria da classe executiva, com foco em conforto residencial a partir de 2027.
Um mercado em transformação
As informações divulgadas pelas companhias aéreas e reunidas pela Forbes Brasil indicam que a primeira classe deixou de ser apenas um assento mais confortável para se tornar um produto integrado de hospitalidade. O movimento ocorre em paralelo à recuperação do setor aéreo global e à consolidação de um público disposto a pagar por experiências exclusivas em viagens internacionais de longa distância.
*Entrevista concedidas a Forbes.


