Hospitalidade, economia da experiência e um recorde de vendas mostram como a Copa do Mundo transformou o estádio em uma plataforma de negócios e abriu novas discussões sobre o futuro dos grandes eventos esportivos
Pouco antes do apito inicial para a útima partida da Copa do Mundo de 2026, milhares de torcedores já viviam um roteiro muito diferente daquele que durante décadas definiu a experiência de assistir a um jogo.
Alguns acompanhavam o aquecimento das seleções a poucos metros do gramado. Outros circulavam por lounges exclusivos, participavam de experiências gastronômicas ou encontravam ex-jogadores e celebridades.

A bola ainda nem havia rolado e outra disputa já tinha um vencedor: a economia da experiência. A edição com 48 seleções entrou para a história por ampliar o torneio dentro de campo, mas também por acelerar uma transformação fora dele.
O ingresso deixou de representar apenas o direito de assistir a uma partida. Passou a fazer parte de um ecossistema de experiências que movimentou cifras recordes e reposicionou a hospitalidade como uma das principais frentes de receita do futebol.
A hospitalidade virou modelo de negócio
Durante décadas, camarotes e áreas VIP estiveram associados quase exclusivamente ao mercado corporativo. A Copa de 2026 mostrou um cenário diferente.
Segundo a FIFA, foram comercializados 588 mil pacotes de hospitalidade, um crescimento de 225% em relação ao Mundial do Catar. O resultado contribuiu para que a entidade superasse a marca de US$ 3 bilhões em receitas com hospitalidade e ingressos.
Mais do que vender lugares privilegiados, a organização passou a oferecer experiências completas: acesso antecipado aos estádios, alta gastronomia, espaços exclusivos, encontros com ex-atletas, serviços personalizados e, em alguns casos, assentos posicionados praticamente sobre o gramado. Na final, determinados pacotes chegaram a US$ 60 mil.
Esse movimento acompanha uma tendência já consolidada em setores como turismo, hotelaria e entretenimento: o consumidor aceita pagar mais quando percebe valor na experiência, e não apenas no produto.
Uma mudança no perfil do torcedor
A executiva brasileira Paula D’Arienzo, Head de Hospitalidade da FIFA, acompanhou essa transformação desde o planejamento da candidatura norte-americana, iniciado em 2016.
Em entrevista ao O Globo, ela destaca que o crescimento da hospitalidade não pode ser explicado apenas pela busca por exclusividade.
“Estamos vendo um crescimento muito grande de pessoas físicas comprando hospitalidade. Nem sempre elas procuram luxo. Às vezes, apenas comodidade, uma experiência mais confortável. Muita gente compra porque quer levar a família.”
A declaração ajuda a entender por que a economia da experiência ganhou espaço dentro do futebol. Em muitos casos, o diferencial deixou de ser o requinte e passou a ser conveniência, conforto e a possibilidade de viver o evento de outra forma.
Ao mesmo tempo, a expansão desse mercado reacendeu um debate inevitável: até que ponto experiências premium ampliam receitas sem contribuir para o encarecimento do acesso aos estádios?
Os números da economia da experiência
- 588 mil pacotes de hospitalidade vendidos;
- 225% de crescimento em relação à Copa de 2022;
- Mais de US$ 3 bilhões arrecadados com hospitalidade e ingressos;
- Até US$ 60 mil por um pacote premium para a final;
- 28 mil profissionais envolvidos na operação de hospitalidade nos três países-sede.
O que fica para o mercado esportivo
A Copa de 2026 mostrou que a experiência do torcedor passou a ocupar um lugar estratégico no modelo de negócios dos grandes eventos esportivos. Não substitui a emoção do jogo, mas amplia as possibilidades de receita para organizadores, ligas, clubes e arenas.
A próxima oportunidade de observar essa tendência estará no Brasil.
Em 2027, a Copa do Mundo Feminina chegará ao país em um momento em que hospitalidade, serviços premium e experiências personalizadas já fazem parte das discussões sobre sustentabilidade financeira dos megaeventos. O contexto será diferente, o público terá características próprias e o desafio também muda: entender como a economia da experiência pode dialogar com uma cultura em que o estádio continua sendo um espaço de encontro, pertencimento e paixão pelo futebol.
Essa é uma das discussões mais interessantes que a Copa de 2026 deixa para quem pensa o esporte como indústria e não apenas como espetáculo. E ela começa muito antes do apito inicial.


