No palco do Rio Innovation Week, o vídeo-denúncia do youtuber Felca, que expôs a sexualização e a adultização precoce de crianças nas redes sociais, serviu como ponto de partida para um debate acalorado sobre os impactos da tecnologia no desenvolvimento infantil e a necessidade de regulamentar a atuação das big techs.

O painel “Likes e laços – Desafios e limites na infância digital” reuniu a promotora de Justiça Gabriela Lusquiños, o secretário municipal de Educação do Rio de Janeiro, Renan Ferreirinha, e o pediatra Daniel Becker, sob a mediação da jornalista Juliana Pio.
Apesar de reconhecerem que a digitalização amplia o acesso à informação e às oportunidades, os participantes foram unânimes: a falta de regulação, supervisão e preparo para lidar com o ecossistema digital está deixando crianças expostas a riscos que vão de vícios comportamentais a crimes graves.
Redes sociais não foram feitas para crianças
Gabriela Lusquiños foi categórica: “O lugar mais perigoso que uma criança pode estar sem supervisão é nas redes sociais. Elas não têm regras e não foram desenhadas para crianças”. Para a promotora, estabelecer idades mínimas para o uso de dispositivos e redes sociais é uma medida urgente. Ela citou o pesquisador Jonathan Haidt, que recomenda 14 anos como idade mínima para ter um smartphone e 16 para ingressar nas redes.
Segundo dados da pesquisa TIC Kids Online 2023, 95% dos brasileiros entre 9 e 17 anos já usam a internet — muitas vezes sem orientação adequada. Para Gabriela, a prioridade é clara: “Diminuir o like e aumentar o laço”.
Ela também destacou que o ambiente digital, quando não mediado por adultos, pode se tornar um espaço de vulnerabilidade extrema. Crianças e adolescentes são alvos fáceis de conteúdos impróprios, manipulações emocionais e até abordagens criminosas. “Não podemos normalizar que crianças estejam sozinhas em ambientes que nem adultos conseguem controlar completamente”, afirmou.
Vício digital, prejuízos cognitivos e adultização
O pediatra Daniel Becker alertou que aplicativos e redes sociais são projetados para gerar dependência. Ele destacou que a exposição precoce compromete atenção, memória e capacidade de leitura, além de abrir espaço para conteúdos nocivos como ideologias extremistas, misoginia, jogos de azar e pornografia.
Becker defendeu a distinção entre “boa tela” — atividades digitais mediadas por interação social, como videochamadas com familiares ou jogos educativos — e “tela ruim”, que estimula o uso compulsivo e solitário. “Essas últimas deveriam ser proibidas para crianças”, afirmou.
Ele também ressaltou que o vício digital pode afetar o desenvolvimento emocional e social dos pequenos. “Estamos criando gerações que têm dificuldade de lidar com o tédio, com a frustração e com o convívio presencial. Isso tem consequências profundas para a saúde mental”, disse.
Escola como barreira protetora
Renan Ferreirinha apresentou a experiência do Rio de Janeiro, primeira capital brasileira a proibir celulares nas escolas. A medida, inspirada em relatório global da Unesco, foi estendida também para os intervalos e recreios.
O resultado, segundo Ferreirinha, foi expressivo: aumento de 53% na aprendizagem, redução de casos de bullying e crescimento de 40% na busca por livros. A iniciativa inspirou um projeto de lei federal que já proíbe o uso de celulares em todas as escolas do país. “A criança percebe que consegue viver sem checar o celular a cada minuto e passa a investir tempo em outras atividades”, disse.
O secretário também reforçou que a escola tem papel fundamental na formação de hábitos saudáveis. “Quando o ambiente escolar se torna livre de distrações digitais, abre espaço para o diálogo, para o brincar e para o aprendizado real”, completou.
Regulação, responsabilidade e papel das famílias
O painel também discutiu a importância de uma legislação digital que reflita a lógica do mundo físico. “O que não é permitido presencialmente não pode ser permitido no digital”, defendeu Ferreirinha.
Gabriela relatou casos investigados pelo Ministério Público em que adolescentes transmitiram violência extrema ao vivo ou incentivaram automutilação. Para ela, a aprovação do PL 2628 — que prevê verificação etária e restrições a algoritmos — é essencial para proteger menores de idade.
Os especialistas reforçaram ainda o papel central das famílias, lembrando que a responsabilidade dos pais é também jurídica. Becker listou sinais de alerta para vício digital, como isolamento, queda no desempenho escolar, irritabilidade e mudanças no sono e na alimentação.
Ao encerrar, Juliana Pio ressaltou que o tema exige ação conjunta: “Não é só governo, escola ou família. Marcas, anunciantes e toda a sociedade precisam se comprometer com a proteção da infância”.


