Num país onde a pressa urbana convive com a escassez de áreas verdes, a solidão se esconde em meio às multidões e a desigualdade atravessa o mercado de trabalho, pensar em bem-estar coletivo é mais do que um ideal, é uma necessidade urgente.
Esse foi o ponto de partida do painel “Bem-estar coletivo: desafios da saúde social”, realizado nesta quarta-feira, 13 de agosto, durante o Rio Innovation Week 2025, no Píer Mauá, no Rio de Janeiro. Mediado por Thamires Coutinho, pesquisadora e especialista em inovação, o debate reuniu vozes de diferentes áreas para discutir como cidades, empresas e comunidades podem criar ambientes mais humanos e inclusivos.

O Brasil que trabalha muito, mas ainda se sente sozinho
“O Brasil é um país que produz muito, mas continua aprendendo a cuidar das pessoas que o fazem girar”, afirmou AD Junior, diretor-geral do Super Finanças. Ele relembrou que, durante a pandemia, parte da população pôde migrar para o home office, enquanto trabalhadores da periferia seguiram nas ruas, expostos a riscos, muitas vezes em funções essenciais.
Para ele, qualquer conversa sobre bem-estar no trabalho passa pelo reconhecimento de privilégios e desigualdades. “Temos empresas ainda enfiadas no capitalismo selvagem. Precisamos de lideranças humanizadas, que entendam o impacto real que causam no dia a dia do colaborador”, pontuou.
O alerta dialoga com dados recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que mostram que o brasileiro dedica, em média, 44 horas semanais ao trabalho, mas ainda enfrenta altos índices de estresse e doenças relacionadas à saúde mental.
Solidão urbana: cercado de gente, mas desconectado
A experiência de viver em uma metrópole também foi tema de destaque. Arana Guimarães, CEO da I.A.R.A., trouxe um ponto sensível: a solidão que cresce em meio às multidões.
“Normalmente, não temos interações simples, como um bom dia. E os espaços públicos são segmentados — um para trabalhar, outro para estudar, outro para dormir. Isso gera estresse e afasta a possibilidade de bem-estar”, disse.
Ela apresentou estudos internacionais que reforçam a importância da integração entre natureza e cidade: áreas verdes reduzem em 20% a sensação de solidão e em 30% os níveis de estresse. “Quando juntamos ecologia e tecnologia, conseguimos ganhos emocionais, sociais e econômicos”, completou.
Esse argumento encontra respaldo em pesquisas da Organização Mundial da Saúde (OMS), que indicam que cidades mais verdes e com mobilidade acessível têm melhores índices de produtividade e menor gasto público com saúde.
O peso da exclusão social na vida urbana
Se nas grandes capitais a solidão pode ser silenciosa, nas periferias ela é marcada por barreiras concretas. O ator Jonathan Azevedo trouxe a perspectiva da favela, onde a falta de acesso a espaços de lazer e cultura limita não apenas o convívio, mas também os sonhos.
“No Vidigal, muitos projetos tentam criar oportunidades, mas vemos tantos pontos fora. Como, por exemplo, quem acha que a praia é democrática — na verdade, ela não é. 90% dos meus amigos que estão lá, estão trabalhando. É muito difícil sonhar sozinho”, disse, arrancando aplausos da plateia.
Sua fala ecoa um dado alarmante do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA): apenas 18% das famílias brasileiras têm acesso regular a equipamentos públicos de esporte e lazer próximos de casa.
Comunidade como antídoto
A empreendedora Xan Ravelli, CIO da Soul Vaidosa, reforçou que o ambiente de trabalho também é um espaço vital para a promoção do bem-estar coletivo.
“Construir comunidade é mais do que dividir uma cerveja. É saber que pode contar com alguém quando ficar doente ou precisar de apoio”, afirmou. Para ela, lideranças inclusivas e equipes integradas são capazes de gerar mais engajamento e reduzir índices de burnout.
Essa visão é corroborada por uma pesquisa da Gallup, que mostra que funcionários que se sentem parte de uma comunidade no trabalho têm 59% menos probabilidade de procurar outro emprego.
Economia e saúde social: um mesmo projeto
O debate no RIW 2025 deixou claro que bem-estar coletivo não é apenas pauta social, mas também estratégica para a economia. Cidades que investem em qualidade de vida reduzem custos com saúde pública, atraem investimentos e aumentam a produtividade.
Segundo a OMS, para cada US$ 1 investido em promoção de saúde mental, há um retorno de US$ 4 em produtividade. No Brasil, isso significaria bilhões de reais em ganhos, além de melhorias diretas na vida da população.
Para AD Junior, o desafio está em transformar essa equação em política de gestão. “Precisamos parar de ver o cuidado com as pessoas como gasto e passar a encarar como investimento”, finalizou.
O Rio Innovation Week é o maior evento de inovação e tecnologia da América Latina. Realizado no Píer Mauá, reúne empreendedores, investidores, pesquisadores, startups e empresas em centenas de atividades voltadas à criação de soluções para os desafios atuais e futuros. O RIW 2025 promove diálogos sobre inteligência artificial, saúde, educação, inclusão social e sustentabilidade, conectando tradição e inovação em um ambiente colaborativo e transformador.


