No segundo dia do Rio Innovation Week 2025 (RIW), o palco 21 do Armazém 5 recebeu um debate que aponta para uma mudança de paradigma na gestão corporativa de recursos: o uso do Bitcoin como reserva estratégica.

A palestra “Reserva Estratégica de Bitcoin”, conduzida por Diego Kolling, especialista e Head de Estratégia Bitcoin da Méliuz, explorou como empresas podem utilizar o ativo digital não apenas como proteção contra inflação e instabilidade cambial, mas também como ferramenta de valorização patrimonial de longo prazo.
Bitcoin Treasury Companies: uma nova categoria corporativa
O modelo, já consolidado em mercados como o norte-americano, é conhecido como “Bitcoin Treasury Company” — empresas que alocam parte significativa de seu caixa em moeda digital para maximizar a quantidade de BTC por ação. Essa estratégia, segundo Kolling, não se limita a “guardar dinheiro” em um ativo digital: ela transforma a gestão financeira, alinhando acionistas ao potencial de valorização da moeda digital.
“Bitcoin é uma espécie de dinheiro aperfeiçoado. Ao contrário das moedas fiduciárias, que perdem valor com o tempo pela emissão constante, o Bitcoin tem oferta limitada e tende a se valorizar à medida que a demanda cresce”, afirmou.
RIW discute aspectos técnicos e estratégicos do Bitcoin
Durante a palestra, Kolling detalhou alguns pontos-chave que tornam a moeda atraente para a tesouraria corporativa. Entre eles, a política monetária programada do ativo: a emissão é limitada a 21 milhões de moedas, e eventos periódicos conhecidos como “halving” reduzem pela metade a recompensa pela mineração de novos blocos, controlando a oferta e criando escassez progressiva.
Outro ponto destacado foram os riscos envolvidos. Apesar do potencial de valorização, a volatilidade do Bitcoin é alta. Empresas precisam de estratégias de mitigação, como diversificação, definição clara de percentuais do caixa alocados e utilização de instrumentos de custódia seguros, que minimizam riscos de perda ou roubo.
Kolling reforçou que, para a tesouraria, não se trata apenas de investimento, mas de gestão estratégica de capital, onde a preservação de valor deve andar junto com o potencial de crescimento.
O case brasileiro: Méliuz como pioneira
Para ilustrar o conceito, Kolling apresentou o caso da Méliuz, que se tornou a primeira empresa de capital aberto na América Latina a adotar o modelo de tesouraria em Bitcoin. Entre o 1º e o 2º trimestre de 2025, a estratégia rendeu um BTC Yield de 908%, índice que mede a performance do ativo em relação ao número de ações. Em apenas 36 dias, o rendimento chegou a 44%, equivalente a 35,42% ao mês.
Segundo o executivo, a decisão de alocar R$ 190 milhões em Bitcoin foi motivada pela percepção de perda de valor do real. “A circulação de moeda cresce todos os anos, mas esse dinheiro acaba estacionado em algum lugar, encarecendo tudo ao redor. A moeda, por outro lado, preserva e potencializa valor”, explicou.
Um movimento de longo prazo
Kolling comparou a atual desconfiança sobre o Bitcoin a momentos históricos de subestimação de recursos estratégicos. “O petróleo já foi visto como um incômodo até descobrirem como usar. Com o Bitcoin, teremos várias décadas de valorização enquanto boa parte do mundo ainda duvida do que vai acontecer.”
Embora arriscada, a estratégia pode se tornar mais comum à medida que empresas buscam alternativas para preservar capital em ambientes econômicos instáveis. “Tudo que vira poupança, fica mais caro e vale mais do que deveria. No caso do da moeda, esse efeito pode ser ainda mais intenso pela escassez programada do ativo”, disse Kolling.
O tema gerou grande interesse do público, reforçando que a integração de criptoativos na tesouraria corporativa já não é apenas um experimento de nicho, mas uma tendência que começa a ganhar corpo no Brasil e no mundo. A combinação entre potencial de valorização, proteção contra inflação e a criação de políticas internas de gestão de risco está transformando a forma como empresas pensam sobre seu caixa e, possivelmente, sobre o futuro das finanças corporativas.


