Poucos nomes no Brasil carregam tanto peso na história da música quanto Marco Mazzola. Produtor visionário, responsável por álbuns icônicos, descobertas de talentos e momentos que marcaram gerações, ele foi o centro das atenções no painel “Os bastidores do documentário de um dos maiores produtores da música brasileira”, realizado nesta sexta-feira, 15 de agosto, no Music Forward, no Pier Space, no Rio de Janeiro.
O encontro contou também com a presença do diretor de TV e cinema Oscar Francisco, responsável pelo documentário sobre a vida de Mazzola, e Julia Evangelista, especialista da Globoplay e mediadora da conversa.

O tom do painel foi de confidências e histórias inéditas, revelando um Mazzola fiel às suas convicções e movido pela ousadia. “Eu sempre sugiro às pessoas que façam aquilo em que acreditam”, disse, ao relembrar sua insistência em apostar no cantor Belchior, quando ninguém acreditava nele.
Foi com essa mesma teimosia que ele convenceu Ney Matogrosso a gravar o clássico “Homem com H”, mesmo diante da resistência inicial do cantor. E com Ivete Sangalo, Mazzola também fez história: produziu o primeiro álbum solo da artista baiana, abrindo caminho para a carreira que a transformaria em um dos maiores nomes da música nacional.
Memória e legado da música brasileira
Para Mazzola, documentários têm papel fundamental na preservação da história musical do país. “Os jovens não sabem quem são esses cantores e esses documentários são extremamente importantes por isso”, afirmou. Ele destacou que produções audiovisuais que revisitam a era da bossa nova e o surgimento de estilos como a MPB ajudam a reavivar a memória e a inspirar novas gerações.
O documentário em produção, dirigido por Oscar Francisco, promete costurar momentos de sua vida e carreira com histórias de bastidores, incluindo parcerias internacionais que marcaram época.
A ousadia que cruzou fronteiras
Quando Julia perguntou sobre a carreira internacional, Mazzola contou como um encontro inesperado mudou seu rumo profissional. Durante uma viagem a Los Angeles com Milton Nascimento, recebeu um recado: Paul Simon queria conhecê-lo. “Passei o telefone para ele e um tempo depois ele me ligou dizendo que estava vindo ao Brasil”, relembrou.
Naquele momento, Mazzola enfrentou uma encruzilhada, pois era funcionário da Sony e a gravadora não quis liberá-lo para produzir o disco do cantor norte-americano. “Fui contra todos, saí e fui fazer o disco. Ele vendeu o dobro”, disse, arrancando aplausos da plateia. Para ele, não há segredo para o sucesso: “O sucesso é fruto da ousadia.”
Economia criativa em prática
As histórias de Mazzola mostram como a economia criativa brasileira é impulsionada por decisões corajosas, parcerias estratégicas e capacidade de inovar. Ao apostar em artistas que se tornariam ícones, ele não apenas ajudou a moldar a cultura, mas também movimentou uma cadeia produtiva que envolve gravadoras, shows, festivais, merchandising e streaming.
O olhar de Marco Mazzola sobre a inteligência artificial
No encerramento, Julia propôs que cada participante refletisse sobre o papel da inteligência artificial (IA) no setor criativo. Oscar Francisco avaliou que a tecnologia “veio para movimentar e associar”, mas que roteiros feitos por IA precisam de refinamento humano para funcionar. Julia destacou a importância de regulamentação e de uso consciente, alertando sobre os riscos aos direitos autorais.
Mazzola, por sua vez, manteve a perspectiva ligada à essência da música: “Atrás de um instrumento, tem uma voz, e isso nunca vai acabar. Você precisa de alguém para comandar, para mexer nos equipamentos. Então eu vejo a IA como uma ferramenta que a gente pode usar, e quem sabe fazer disso uma coisa muito bacana.”
Aos 80 anos, Marco Mazzola segue como símbolo de resistência criativa e de aposta naquilo que poucos ousam acreditar. Se a música brasileira tem memória, identidade e futuro, muito disso se deve à ousadia que ele transformou em marca registrada.


