Com cerca de quatro milhões de habitantes, a Baixada Fluminense é uma das regiões mais populosas do estado do Rio de Janeiro e também uma das mais esquecidas quando o assunto é investimento em cultura. Foi esse o pano de fundo do painel “Cultura, Turismo e Inovação”, realizado na RIW POP e Tech, que reuniu lideranças culturais, gestores públicos e ativistas sociais da região para debater um problema recorrente: por que uma área tão relevante em termos demográficos, históricos e culturais segue recebendo uma fração mínima dos incentivos públicos e privados destinados ao setor.
Leandro Monteiro, secretário municipal de Turismo, Eventos e Juventude de Nilópolis e presidente da Instância de Governança Regional Baixada Verde, defendeu que o turismo pode ser a porta de entrada para desconstruir estigmas históricos associados à região. Segundo ele, mesmo quem vive na Baixada carrega “uma dose de preconceito enorme enraizada”, fruto de um discurso repetido desde a infância de que o caminho natural é “ganhar dinheiro e sair” do território.

Para ele, a cultura não deve ser tratada apenas como capital social, mas sim geradora de emprego, renda e desenvolvimento territorial, e falta reconhecimento desse papel nas políticas públicas.
Recursos ainda estão concentrados fora da região da Baixada Fluminense
Os números expõem a desigualdade na distribuição de recursos: de 147 milhões de reais captados via ICMS em 2025 no estado, apenas 5 milhões foram destinados a projetos da Baixada. Dos 117 projetos contemplados, só seis eram da região. Um cenário semelhante se repete na Lei Rouanet, cuja captação na Baixada Fluminense, segundo ele, não chega a 1% do total do estado.
Para o ativista, falta também investimento privado local: empresas alimentícias com forte presença na região poderiam, por exemplo, patrocinar festas juninas e outros eventos populares, criando um ciclo econômico que hoje simplesmente não se fecha. “A Baixada é potência. E a gente precisa estar representado no orçamento do Governo do Estado”, resumiu.
Instituto Zeca Pagodinho: 26 anos transformando dor em música
Louis Carlos — conhecido como Luizinho, diretor-geral do Instituto Zeca Pagodinho — contou a trajetória de uma das iniciativas sociais mais tradicionais da região, criada há 26 anos a partir de duas dores pessoais do cantor: não ter tido acesso a estudar música na infância e ter visto colegas músicos amadores perderem oportunidades de trabalho por falta de formação teórica.
Nascido em 1999 como escola de música em Xerém, o instituto hoje atende 250 crianças através do projeto Viva Xerém — orquestra, coral e teatro que, ao final do ano, leva 70 delas ao palco. Em 2026, pela primeira vez, o musical vai homenagear a própria trajetória de Zeca Pagodinho.

O Instituto Zeca Pagodinho também oferece oficinas de artesanato para familiares dos alunos, uma linha de audiovisual, além de uma vertente socioambiental. No local, há uma horta urbana de 8 mil metros quadrados que, somente em 2025, forneceu mais de duas toneladas de alimentos para cozinhas solidárias da região.


