A trend viralizada no segundo semestre de 2024 se foi, mas os efeitos permanecem
O movimento, iniciado por artistas e profissionais do meio criativo, encontrou na frase, ainda que em tom debochado, um resumo de sua insatisfação com o modo fabril de criação, produção e comercialização das artes, e a viralização não surpreendeu. Afinal, toda e qualquer atividade que indicasse um momento de lazer ou distração em meio à agenda de compromissos e responsabilidades — fossem essas profissionais ou de vida pessoal — caberia no tom cômico da expressão.
Em nosso primeiro texto, consideramos teorias da comunicação juntamente à sabedoria ancestral de um grande artista de nosso tempo. Esse paralelo tem por objetivo manter o equilíbrio entre as reflexões acadêmicas e saberes práticos de vivências compostas por reflexões que muitas vezes a universidade não alcança.
Com a intenção de trazer opiniões e conhecimento sobre a indústria musical, trago uma discussão ancorada na economia criativa para nossa coluna. Recentemente, o CEO da Suno Music AI, Mike Shulman, em entrevista, comentou:
“Não é realmente agradável fazer música agora. […] Acho que a maioria das pessoas não gosta da maior parte do tempo que passam fazendo música.”

Um mercado saturado e pouco ouvido
Porém, não descartamos a fala sem considerar seu contexto. Ora, estamos em um dos momentos com mais lançamentos de música em nossa história. Em 2024, Will Page, ex-economista-chefe do Spotify, contou ao site da revista Superinteressante que “mais músicas estão sendo lançadas hoje [em um único dia] do que no ano inteiro de 1989”. O número não é preciso, mas supera a marca de 100.000 faixas. A título de exemplo, ouvir essa quantidade de faixas requer cerca de 30 anos
A democratização das ferramentas de produção, como plataformas de assinaturas de catálogos, celulares com processadores avançados, home studios e outras tecnologias, possibilitou que muitas pessoas se aventurassem ou migrassem para a indústria artística, por vezes até se reconhecendo em uma faceta antes desconhecida ou escondida — seja por hobby, seja pela diversão — denominando-se artistas, justamente pela facilidade do criar.
Porém, muitas dessas faixas são lançadas, mas sequer são ouvidas. De acordo com a Luminate, quase 60 milhões de músicas tiveram menos de 1.000 reproduções em 2023 — me incluo nesta estatística. Além disso, 45,6 milhões de faixas tiveram zero plays, e esse número representa 24,8% das 184 milhões de faixas usadas como parâmetro para o estudo.
A partir dessa pesquisa, o Spotify se posicionou contrariando a categoria artística: faixas com menos de 1.000 plays por ano seriam automaticamente desmonetizadas. A empresa alega custos com infraestrutura digital e operacional para tal ação.
A pandemia e o isolamento mudaram hábitos de consumo. Parte desses novos artistas “nasceu” no período pandêmico. Muitas pessoas buscaram a música como modo de escape e entretenimento — caso comum em épocas de crises estruturais — e, por meio de tutoriais e ferramentas de geração de imagens, vídeos e voz, como a Suno Music AI, chegaram a uma criação artística, mesmo que artificial.
Mas, se é perceptível, por meio de dados, a baixa aderência de artistas e a maior participação de “aventureiros” no ramo musical — que não terão constância para a consolidação de uma carreira —, em que ponto pode haver coerência ou assertividade na fala de Mike?
Falta fôlego: criar virou maratona
Em 1987, Os Titãs, em meio a mudanças políticas, sociais e econômicas, questionavam:
“Você tem sede de quê? Você tem fome de quê?”
E respondiam:
“A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte”
“A gente não quer só comer, a gente quer prazer e aliviar a dor, a gente quer inteiro e não pela metade”

Afinal, não são apenas as mudanças tecnológicas que transformam os modos de criação da música e modificam a indústria musical; há de se pensar — e com honestidade — sobre as condições econômicas e emocionais da classe artística na totalidade, pois o contrário da depressão não é a alegria, é a expressão. Expressão que será guiada pelo zeitgeist, termo alemão cuja tradução significa espírito da época, espírito do tempo ou sinal dos tempos.
As dificuldades enfrentadas por profissionais da música em operar de modo sustentável ainda resvalam na máxima capitalista da exploração e do lucro. Não é preciso uma graduação para tal, basta notar acontecimentos recentes do mercado musical, e perceberemos parte das dificuldades da classe artística em manter um digno sustento — o que se torna evidente pela quantidade de artistas divulgando rifas, sorteios, apostas e outros negócios que não sua música.
Muitos artistas possuem um ou mais empregos; assim, lançam seu trabalho “quando dá”. Escrevem, gravam, produzem entre uma folga de escala 6×1 ou um bom rendimento de seus trabalhos informais que suprem a meta semanal ou mensal. Falta fôlego ao artista.
Então, talvez Mike esteja certo… “Fazer música não tem sido um exercício agradável”, já que o sucateamento do ofício tem sido minado e exigido um ritmo maratonista da classe artística entre criação, produção, divulgação e monetização — elencando de modo resumido, pois cada uma destas etapas merece atenção, cronogramas e organização financeira que encurralam e pressionam artistas… artistas estes que, antes da trend, já se sentiam sufocados.


