Mesmo com avanços recentes, o Brasil ainda ocupa as últimas posições no Ranking Mundial de Competitividade Digital, divulgado nesta segunda-feira, 16 de junho, pela Fundação Dom Cabral (FDC) em parceria com o International Institute for Management Development (IMD). O país subiu quatro colocações e agora ocupa o 58º lugar entre 69 países avaliados — ficando à frente apenas de nações como Botswana, Argentina e Venezuela.
A classificação, que leva em conta critérios como performance econômica, eficiência governamental, eficiência empresarial e infraestrutura, é um termômetro global de como os países utilizam tecnologia digital para transformar suas economias e melhorar a qualidade de vida da população. Em 2025, os cinco primeiros colocados foram Suíça, Singapura, Hong Kong, Dinamarca e Emirados Árabes Unidos.
Segundo o professor Hugo Tadeu, diretor do Núcleo de Inovação da FDC, apesar do ganho recente, o Brasil não saiu do grupo de países com desempenho mais fraco. “Em números absolutos, continuamos no mesmo patamar de 10 anos atrás”, afirma em entrevista a Forbes. Para ele, a falta de uma agenda consistente de reformas estruturais, investimentos em inovação, educação e abertura comercial tem limitado o avanço brasileiro.
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Os entraves à competitividade digital
Para entender as razões por trás da baixa posição do Brasil no ranking, é necessário olhar para cinco pilares centrais destacados pela pesquisa:
1. Custo de capital e dívida corporativa
Com juros altos e burocracia no acesso ao crédito, o Brasil amarga a 68ª colocação nesse critério. A dívida corporativa é elevada, o que limita a capacidade de investimento das empresas. O Banco Central, por exemplo, mantém a taxa Selic em 10,25% ao ano (dados de junho de 2025), o que encarece os empréstimos e desestimula a expansão dos negócios.
2. Educação e habilidades linguísticas
O país também ocupa a 68ª posição em proficiência em idiomas e qualidade da educação. Segundo o relatório do Pisa 2022 (OCDE), o Brasil teve uma média de 379 pontos em leitura, enquanto a média dos países desenvolvidos é de 487 pontos. Isso reflete a dificuldade de formar uma força de trabalho capacitada e fluente em línguas estrangeiras — algo essencial para negócios digitais e inserção internacional.
3. Mão de obra qualificada e produtividade
Outro problema grave é a escassez de profissionais qualificados e a baixa produtividade. De acordo com dados do IBGE, a produtividade do trabalhador brasileiro cresceu apenas 0,5% em 2024, enquanto países da OCDE tiveram aumentos superiores a 2%. A falta de políticas públicas de requalificação profissional e de parcerias entre o setor privado e o público agrava esse cenário.
4. Abertura econômica e comércio exterior
Embora o Brasil tenha apresentado avanço em investimentos estrangeiros diretos em 2024 — foram US$ 60 bilhões, segundo o Banco Central (cerca de R$ 324 bilhões no câmbio médio de R$ 5,40) —, o país ainda mantém barreiras tarifárias significativas e baixa participação no comércio internacional. Em exportações de serviços, por exemplo, ocupa apenas a 62ª posição.
5. Ambiente regulatório
Com um sistema tributário complexo e instável, o Brasil ficou com a 68ª posição em protecionismo e a 67ª em finanças públicas. O custo Brasil, estimado pela CNI (Confederação Nacional da Indústria), reduz a competitividade da economia em R$ 1,5 trilhão por ano, impactando diretamente o ambiente de negócios.
Educação e ciência como motores do futuro
Para sair da estagnação, Hugo Tadeu defende uma mudança de rota com foco em educação, inovação e transferência de conhecimento. Ele cita a Suíça como exemplo, onde centros de pesquisa e universidades contribuem diretamente para o avanço em saúde e alimentação. Já países asiáticos como Singapura e Hong Kong se destacam pela forte integração tecnológica com o setor produtivo.
“O Brasil precisa deixar de depender exclusivamente das commodities e mirar na economia do conhecimento”, ressalta. Segundo ele, seria necessário um pacto nacional para transformar a educação básica, reforçar o ensino técnico, melhorar a proficiência digital e criar condições para que universidades públicas e privadas se tornem hubs de pesquisa e inovação.
O que pode mudar?
Algumas ações prioritárias apontadas pelos especialistas incluem:
- Reformar o sistema tributário para simplificar o ambiente de negócios;
- Reduzir o custo do crédito com juros mais baixos e menos burocracia;
- Investir na formação contínua de professores e na modernização curricular;
- Estimular o ensino bilíngue desde o ensino fundamental;
- Ampliar a participação do Brasil em acordos comerciais internacionais;
- Digitalizar serviços públicos e tornar o ambiente regulatório mais transparente.
O avanço do Brasil no ranking de competitividade digital é um sinal positivo, mas ainda muito tímido diante dos desafios. A boa performance econômica em 2024, com controle da inflação e melhora no emprego formal, foi um fator determinante para o salto de quatro posições. No entanto, sem reformas estruturais profundas e investimentos em capital humano, o país continuará distante dos líderes globais.
A transição para uma economia digital exige planejamento, cooperação público-privada e uma visão de longo prazo que vá além das demandas conjunturais. O Brasil tem potencial — mas precisa transformar esse potencial em ação concreta.


