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Um ano depois da tragédia no RS, ONG vira exemplo para continuar fazendo mais 

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Em meio ao cenário desolador deixado pelas chuvas que assolaram Porto Alegre em maio do ano passado, emergiu um farol de esperança e resistência: a Casa Tulipa. Liderada por Geórgia Rodrigues, a ONG nasceu da urgência de agir rapidamente para socorrer mulheres sobreviventes no bairro Juca Batista, na zona sul da capital gaúcha.

Um ano depois da tragédia no RS, ONG vira exemplo para continuar fazendo mais
O início da Casa Tulipa remonta ao auge da crise, quando Bernadete Prates, fundadora da organização, chamou Geórgia para criar um espaço de acolhimento contínuo, o qual ela hoje conduz com um núcleo forte de mulheres | Foto: Reprodução/ Divulgação/Internet

A tragédia expôs a vulnerabilidade das famílias, e a necessidade de um apoio que fosse além do abrigo inicial se tornou gritante. “A maior urgência foi perceber a necessidade do apoio contínuo às mulheres que estavam voltando para suas casas sem nada para recomeçar. A angústia de ver tudo destruído desestabilizou ainda mais as mães.”

Um abrigo que virou potência

Enquanto abrigo durante a tragédia climática, a Casa Tulipa conseguiu atender cerca de 380 famílias. Com a necessidade de expansão — já que, ao analisarem mães e filhos, percebiam que o retorno era para onde a água e a lama passavam — entenderam que, embora no abrigo houvesse comida, cama e acolhimento, os impactos na condição emocional eram ainda maiores.

A jornada da empreendedora tornou-se um pilar fundamental, buscando fortalecer as mães e trazer uma fonte de renda para as famílias. Em um esforço criativo e resiliente, foram criadas oficinas de costura sustentável, e as peças produzidas foram vendidas em feiras.

Também foram produzidos e vendidos pães e salgados. Essas ações, ao capacitarem as mulheres e promoverem a produção local, refletem um modelo que dialoga com os princípios da economia solidária e circular — onde os recursos e talentos são aproveitados e circulam na comunidade.

“Não somos mais um abrigo, somos um local de acolhimento com profissionais voluntários”, explica Geórgia. Além do apoio emocional, a ONG desenvolveu iniciativas voltadas para a autonomia econômica das mulheres.

Passados 12 meses das inundações, a engrenagem da Casa Tulipa luta para seguir ativa. Os dias intensos de trabalho no início deram lugar a uma fase em que as doações diminuíram significativamente, e a tragédia, para muitos, começou a ser esquecida. Apesar disso, a organização fortaleceu seu propósito de amparar as mães que ainda sofrem.

Alimentar para permitir aprendizado

No novo momento, os problemas são outros. “Nesta nova fase, temos ainda desafios, como alimentação para nossas alunas e crianças, porque damos aulas para as mães e as crianças sempre vêm junto. Se não, as mães não conseguem estudar.” Ela complementa: “Este é um valor alto para nós: acolher os filhos sempre junto. Porém, crianças têm fome — e bastante.”

A ONG oferece aulas de segunda a sábado e busca fornecer um café reforçado à tarde e jantar para as turmas da noite, para que as mães possam estudar tranquilas, sem a preocupação de cozinhar ao chegar em casa. “Nosso objetivo é oferecer o jantar para que as mães não precisem chegar em casa e ainda cozinhar — quando têm o que cozinhar”, afirma. Embora já possuam um fogão e uma geladeira pequena, Geórgia lista o que ainda falta: utensílios, pratos, talheres, copos, panelas. E tudo por um único e claro objetivo: “Queremos alimentar todas para que tenham condições de estudar tranquilos.”

Além da alimentação, a Casa também conta com voluntários que oferecem diversas atividades, como aulas (incluindo a própria Geórgia, que ensina às quartas e aos sábados), terapia, futebol para crianças, capoeira, boxe e dança.

Um ano depois da tragédia no RS, ONG vira exemplo para continuar fazendo mais
A organização funciona de segunda a sábado, fechando às 22h, com o desejo de que todos saiam alimentados | Foto: Reprodução/Instagram/@ongcasatulipa

Geórgia menciona outras necessidades: “Gostaríamos de mais professores, voluntários, doações de roupas de inverno.” Atualmente, a manutenção depende, em parte, de verbas pessoais de Geórgia e Bernadete, além de pedidos contínuos de doações. A meta é alcançar grandes mercados para garantir doações frequentes.

Naquele que seria o local da carência, esgota-se a potência e a capacidade humana de se unir e transformar a dor em força, criando pontes para o recomeço e construindo uma rede de apoio que vai além do básico, investindo na autonomia e na esperança das famílias impactadas pela tragédia. E vai além: exige que haja amparo em formato de política pública. Só há uma conversa nesse sentido, sendo pautada pela continuidade.

Geórgia resume o esforço: “Usamos nossas verbas pessoais, eu e a Bernadete, e sempre estamos pedindo doações. Precisamos alcançar os grandes mercados com doações frequentes.”

Sobre o autor Edu Carvalho

Jornalista e apresentador. Com mais de uma década na comunicação, passou pela Globo, CNN, Revista Época. É colunista em Ecoa UOL e Projeto Colabora. Filho da Rocinha, cria do mundo.

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