270 mil mulheres. Esse é o número daquelas que buscaram informações sobre o direito à pensão, inspiradas pela coragem de Lucimar, personagem da nova versão de Vale Tudo, da TV Globo. Em um capítulo exibido na semana passada, a faxineira entrou com um pedido de pensão alimentícia para o filho. Após a cena, mais de 4.500 acessos por minuto ao aplicativo do órgão foram contabilizados, de acordo com a Defensoria Pública do Rio de Janeiro.

Isso mostra o poder que a novela tem no Brasil — algo com um alcance tão rápido e potente que não é apenas arte: é um gatilho para as pessoas buscarem seus direitos, especialmente aqueles que afetam o bem-estar financeiro das famílias, como a pensão alimentícia.
A novela como espelho da sociedade
Justamente as novelas brasileiras, que muitas vezes falam sobre a dinâmica de todo um país, atuam como um veículo poderoso de discussão, reflexão e, por vezes, transformação de comportamentos. Na teledramaturgia que é viva, a capacidade de falar com milhões simultaneamente confere à narrativa um alcance social singular — mesmo enfrentando o avanço do streaming.
A TV aberta tradicional ainda demonstra uma capacidade notável de dialogar com uma vasta parcela da população. Seja por fatores como acessibilidade, exibição em horários de pico, linguagem popular ou tramas que ressoam as realidades brasileiras, a novela — esse dramalhão tão tupiniquim — continua sendo um ponto de convergência cultural e social.
Casos que deixaram marcas
Mas este não é um caso isolado. Caminho das Índias, em 2009, abordou a esquizofrenia, ajudando a desmistificar o tema e a gerar empatia. Já A Força do Querer (2017) trouxe a questão da identidade de gênero, promovendo visibilidade e compreensão sobre as identidades trans. Ambas foram escritas por Glória Perez, que, há pouquíssimo tempo, teve uma proposta de ideia negada pela emissora carioca — a premissa era tratar de um dos maiores tabus do país: o aborto.
Não custa lembrar que, ainda na esteira de mudanças sociais, Mulheres Apaixonadas (2003), de Manoel Carlos e ambientada no jocoso Leblon, jogou luz sobre a violência doméstica e o alcoolismo, incentivando denúncias e reflexão.
Sala de aula coletiva
As novelas não apenas educam e sensibilizam. Elas podem impulsionar as pessoas a buscar seus direitos essenciais. Num Brasil em que três a cada dez brasileiros com idade entre 15 e 64 anos não sabem ler e escrever, ou sabem muito pouco a ponto de não compreender pequenas frases, ou registrar mentalmente números de telefones, ou preços — segundo dados do Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf) — as novelas são uma espécie de sala de aula coletiva.
Que aquilo que se vê na tela — ou na novela — possa ser também (oxalá permita) a transformação real do nosso país.


