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Elon Musk, uma bomba–relógio

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Nos últimos dias, o mundo não falou de outra coisa: o homem mais rico do planeta voltou aos holofotes — e, desta vez, não era por lançar mais um carro ao espaço. Elon Musk, como todos nós já estamos “carecas de saber”, adora uma polêmica.

Elon Musk, como todos nós já estamos “carecas de saber”, adora uma polêmica.
O dono da Tesla, da SpaceX e da plataforma X foi o centro dos debates enquanto chefiava o Departamento de Eficiência Governamental dos Estados Unidos (Doge, na sigla em inglês), com a meta de cortar gastos | Foto: Reprodução/Wikimedia Commons

E qual foi o babado agora? No Salão Oval da Casa Branca, o amiguinho do presidente Donald Trump — que deixou o governo depois de 130 dias — comeu o pão que o diabo amassou para responder às denúncias feitas pelo New York Times, que afirmou que ele teria consumido drogas durante a campanha presidencial de 2024. Segundo o jornal, o empresário fez uso de cetamina, ecstasy e cogumelos psicoativos.

Em entrevista, ele negou as acusações, mas assumiu que experimentou cetamina — prescrita há alguns anos — e disse ter tornado o assunto público. Segundo ele, a medicação “ajuda a sair de buracos mentais sombrios”.

Tradução para “buracos mentais sombrios”: depressão resistente.

Cetamina

Então vamos entender o que é cetamina: um anestésico que, se utilizado fora do ambiente hospitalar e sem supervisão médica, pode causar depressão respiratória — e até matar.

A cetamina é usada pela medicina há pelo menos 60 anos. Age diretamente no sistema nervoso central e altera a função cerebral.

Nos Estados Unidos, a FDA — agência que regula alimentos, medicamentos, cosméticos, suplementos e derivados de sangue — aprovou o uso da cetamina para o tratamento de depressões severas. A droga também está na Lista de Medicamentos Essenciais da Organização Mundial da Saúde (OMS).

De acordo com o Dr. Renato Lobo, psiquiatra há mais de 30 anos com foco em casos graves de transtornos mentais e dependência química, no Brasil, a cetamina é usada como anestésico em cirurgias e procedimentos médicos. Ainda segundo o especialista, a Anvisa liberou o uso da cetamina apenas para pesquisas — como as realizadas no Serviço de Psiquiatria do Complexo Hospitalar Universitário Professor Edgard Santos, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), com patrocínio da Janssen, do grupo Johnson & Johnson.

Esses estudos resultaram no desenvolvimento do Spravato, um spray de ação quase imediata. O medicamento tem como base a escetamina (derivado da cetamina) e tem uso autorizado pela Anvisa. Na Holanda, cada sessão pode custar entre US$ 4 mil (R$ 20,4 mil) e US$ 6 mil (R$ 30,5 mil). No Brasil, uma sessão pode chegar a R$ 3 mil.

Uma verdadeira queda de braço

Mesmo com comprovação científica e resultados positivos, o uso da cetamina ainda enfrenta barreiras para se tornar um tratamento viável para quem precisa.

Planos de saúde, por exemplo, negam a cobertura alegando que o medicamento não é totalmente aprovado pela Anvisa — o chamado uso “off-label”. Por isso, muitos pacientes têm recorrido à Justiça — e conseguido decisões favoráveis. Fica a dica para os usuários do SUS.

A venda da medicação é permitida apenas para clínicas e hospitais (incluindo veterinários), mas parece que qualquer um consegue comprar livremente na internet — e em festas país afora. É aí que mora o perigo.

Numa rápida busca online, encontrei vários sites de distribuidoras vendendo o produto sob “restrição” (não se sabe até onde vai essa restrição). Uma oferta me chamou a atenção: 25 ampolas por R$ 961,94 à vista — ou em seis vezes sem juros — com a descrição: uso intravenoso e intramuscular, uso adulto e pediátrico.

O anestésico veterinário também é encontrado com facilidade: um kit com quatro caixas pode custar até R$ 703.

Quem quer ser um milionário?

Esses valores são fichinha para Elon Musk. Sua fortuna, estimada em cerca de US$ 340 bilhões em 2025, vem principalmente de ações da Tesla e da SpaceX, além da renda de outras startups e de negócios como a Starlink e a The Boring Company.

Mas aí me pergunto: por que um cara bilionário, com um carro rodando na órbita da Terra e com poder de decisão no governo de uma das maiores potências mundiais, teria depressão?

“Quanto mais eu rezo, mais assombração aparece”, diria minha mãe. Nós, os pobres mortais, ralando para sobreviver — e o excêntrico Elon Musk mergulhando no desconhecido.

Imagina só uma substância com ação dissociativa — ou seja, a pessoa se desconecta da realidade, tanto do ambiente quanto de si mesma — e que pode causar como efeitos colaterais: confusão mental, delírio, alucinações, sensação de estar sonhando, excitação, comportamento irracional…

Sem nenhum prejulgamento, acho que Elon Musk quer voltar pra casa — o planeta desconhecido.

Sobre o autor Livia Calmon

Jornalista com passagens pelas redações da TV Globo — São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Minas Gerais e Bahia —, da TV Record SP, Band SP e revista IstoÉ Gente. Produtora de Conteúdo de Campanhas Políticas e estudiosa da área da saúde

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