Por que seguimos importando modelos euro-americanos de arte, ciência, espiritualidade e bem-estar enquanto ignoramos a potência da diversidade cultural brasileira?

Felicidade não é um conceito universal
O World Happiness Report tem revelado, ano após ano, como o bem-estar é construído culturalmente. Em 2021, um capítulo raro foi dedicado à África Subsaariana. O relatório mostrou que, mesmo diante de desigualdades intensas, formas comunitárias de cuidado — como a filosofia Ubuntu e as redes familiares — seguem sustentando o florescimento humano.
Em 2022, o psicólogo britânico Tim Lomas apresentou um estudo comparando os entendimentos de felicidade entre Oriente e Ocidente: enquanto o Ocidente prioriza a autonomia, a realização pessoal e o bem-estar psicológico, o Oriente valoriza a harmonia social, a espiritualidade e o equilíbrio emocional.
Já em 2025, o mesmo relatório destacou a importância de práticas culturais como o compartilhamento de refeições — mais do que um gesto cotidiano, uma forma poderosa de gerar pertencimento e saúde emocional.
O Brasil ainda ignora suas próprias riquezas
No entanto, ao olharmos para o cenário brasileiro, percebemos um contraste: mesmo com toda sua diversidade cultural e ancestral, o Brasil segue preso a modelos de felicidade importados de universidades como Harvard, Columbia e Oxford — centros dominados por visões eurocêntricas, masculinas e elitizadas. Essa dependência epistemológica limita nossa capacidade de compreender o que significa viver bem em um país plural — em família, na escola, no trabalho, nos templos, nos hospitais ou nas ruas.
E o problema não para por aí. Expressões como o samba, o pagode e o funk ainda são marginalizadas, tratadas como entretenimento de “baixa qualidade” — quando, na verdade, são manifestações legítimas de resistência, identidade e afeto.
Do mesmo modo, religiões afro-brasileiras como a Umbanda, o Candomblé, a Jurema e o Tambor de Mina continuam sendo estigmatizadas, enquanto tradições europeias e asiáticas — como o kardecismo ou o budismo —, sem contar diversas expressões do cristianismo, recebem prestígio e reconhecimento.
Esse elitismo cultural não molda apenas nossos gostos artísticos ou espirituais. Ele determina, na prática, quais formas de vida são consideradas dignas de serem chamadas de felizes. Ao adotar uma “monocultura da mente” sobre a felicidade, apagamos os múltiplos jeitos de viver bem que nascem dos nossos territórios, das nossas histórias e das nossas identidades.
Precisamos cultivar o que é nosso
Dados recentes reforçam o tamanho dessa diversidade. Um estudo publicado na revista Science, como parte do projeto DNA do Brasil, revelou que a composição genética média dos brasileiros é de 60% de ancestralidade europeia, 30% africana e 10% indígena. A pesquisa, que analisou o DNA de mais de 4 mil pessoas de todas as regiões do país, mostrou que o Brasil é uma das populações mais miscigenadas do planeta.
Ainda assim, seguimos tentando caber em um modelo homogêneo, racionalista e individualista de felicidade. E, ao fazer isso, rompemos com nossas raízes, fragilizamos nosso senso de pertencimento e deixamos de valorizar saberes que poderiam nos oferecer caminhos mais coerentes — e mais nossos.
Como sugere Tim Lomas, felicidade é um conceito relacional, simbólico e histórico. Está nos vínculos que criamos, na dignidade que cultivamos, na identidade que partilhamos. Está no prato que se divide, no corpo que dança, na fé que acolhe.
É isso que as métricas globais ainda não sabem medir — e que, no Brasil, talvez seja o que mais sustenta a vida. Por isso, mais do que nunca, é preciso romper com a lógica da exclusão simbólica. A felicidade, para ser verdadeiramente nossa, precisa reconhecer todas as formas de ser e estar. Precisamos resgatar o que nos foi negado, afirmar nossa pluralidade e cultivar um país onde todas as culturas sejam respeitadas, onde todas as vozes sejam ouvidas, e onde o bem-estar não seja um privilégio — mas um direito compartilhado.
Só assim o Brasil poderá ser, de fato, uma nação gentil — e feliz.


