Desde a privatização em junho de 2022, a Eletrobras passou por transformações estruturais importantes. Cortou custos, reduziu o quadro de funcionários, aumentou investimentos e encerrou disputas com o governo federal.
Apesar dos avanços operacionais, o desempenho das ações não acompanhou as expectativas iniciais, gerando frustração, especialmente entre os pequenos investidores que usaram o FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) para comprar papéis da empresa.
Na época da capitalização, o governo federal reduziu sua participação de cerca de 65% para 40%, movimentando mais de R$ 30 bilhões com a venda de ações. A operação transformou a Eletrobras em uma corporação, com controle pulverizado entre os acionistas.
No entanto, os papéis ordinários da companhia (aquelas que conferem ao acionista o direito de voto em assembleias da empresa), que foram vendidos por R$ 42, fecharam no dia 17 de junho de 2025 cotados a R$ 41,44 — valor ainda inferior ao esperado. Na ocasião da oferta, casas de análise chegaram a projetar preços entre R$ 60 e R$ 70 por ação.
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Redução de despesas e aumento de investimentos
Segundo a Eletrobras, houve uma queda de 18% nas despesas operacionais desde a privatização. Também foi reduzido em 27% o quadro de funcionários, como parte da política de eficiência da nova gestão. Além disso, os passivos referentes aos empréstimos compulsórios da estatal encolheram mais de R$ 13 bilhões — aproximadamente o equivalente a US$ 2,38 bilhões na cotação de R$ 5,46 por dólar.
Outro indicador é o crescimento dos investimentos. Em 2021, ainda como estatal, a Eletrobras investiu R$ 4,6 bilhões. Em 2024, esse valor saltou para R$ 7,7 bilhões, um aumento de 67%. Os recursos foram destinados principalmente à modernização da infraestrutura e à ampliação da capacidade de geração e transmissão.
Dividendos pagos, mas retorno do papel não acompanha
Apesar da valorização operacional, os acionistas ainda aguardam uma resposta mais consistente na Bolsa. Em 2024, a empresa distribuiu cerca de R$ 4 bilhões em dividendos, o que representa um retorno considerável para quem manteve os papéis.
Mesmo assim, muitos investidores — especialmente os cerca de 300 mil que usaram o saldo do FGTS — continuam com perdas acumuladas desde a compra, segundo destacou o presidente da Eletrobras, Ivan Monteiro, em entrevista ao Estadão/Broadcast.
Para Monteiro, a desvalorização é reflexo do comportamento de curto prazo do mercado financeiro, que não considera ainda os planos estratégicos de longo prazo da empresa. “É difícil vincular o desempenho imediato das ações às mudanças internas da companhia”, afirma o executivo.
Setor elétrico pressiona e cenário político interfere
Especialistas apontam que a atual conjuntura do setor elétrico ajuda a explicar a performance aquém do esperado das ações. A sobreoferta de energia no País, intensificada pelo crescimento da geração solar distribuída, fez com que os preços do megawatt-hora (MWh) ficassem abaixo do projetado durante a privatização. Na ocasião, esperava-se que a chamada “descotização”, processo que permite à Eletrobras vender energia no mercado livre a preços mais altos do que os cerca de R$ 90/MWh sob o regime antigo, fosse um dos motores de crescimento. No entanto, os valores de venda continuam pressionados.
Além disso, fatores políticos também entraram em cena. Em 2023, o governo federal entrou com uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) no Supremo Tribunal Federal (STF) para tentar ampliar seu poder de voto na companhia. Isso gerou insegurança jurídica e retardou medidas mais ousadas de reestruturação, como a incorporação das subsidiárias Chesf e Eletronorte.
O acordo firmado entre a Eletrobras e a União em 2024 manteve o limite de 10% de poder de voto ao governo, mas cedeu mais cadeiras no Conselho. Para Vitor Sousa, da Genial Investimentos, a tentativa de interferência política paralisou parte da agenda de reestruturação, o que contribuiu para a “letargia” da recuperação da companhia na Bolsa.
Perspectivas para o futuro da Eletrobras
Apesar das turbulências, analistas ainda veem potencial na empresa. Para Ilan Arbetman, da Ativa Investimentos, o mau desempenho operacional do primeiro trimestre de 2025 foi pontual, decorrente de decisões de comercialização. Ele acredita que a tese de valorização permanece válida, especialmente com a tendência de alta nos preços de energia de longo prazo.
Já o diretor da Fitch Ratings, Wellington Senter, reforça que a companhia cumpriu com excelência o que estava sob seu controle, como o corte de custos e o foco nos investimentos. A agência elevou a perspectiva de rating da Eletrobras de negativa para neutra, ainda que a nota da empresa permaneça abaixo do grau de investimento do Brasil.
Três anos após a privatização, a Eletrobras mostra sinais de reorganização. No entanto, fatores externos como o cenário do setor elétrico, os juros altos e a interferência política ainda travam o desempenho de suas ações. Para os analistas, o mercado deve começar a reconhecer essas melhorias à medida que o ambiente macroeconômico se estabilize e as incertezas políticas diminuam.
*Entrevistas concedidas ao Estadão.


