Deixar fortuna para os filhos está longe de ser uma regra no universo dos famosos. Nomes conhecidos da música, do cinema e da tecnologia estão adotando uma postura radical: gastar tudo em vida ou doar o patrimônio a causas sociais. A decisão, que surpreende o público, tem fundamentos tanto filosóficos quanto financeiros.
A discussão voltou à tona após a apresentadora Gaby Cabrini comentar em rede nacional que os pais deveriam usufruir da riqueza enquanto estão vivos, e que ela é contra a ausência total de herança. A fala ecoou num momento em que aumentam os casos de figuras públicas que se declaram contrárias à ideia de transferir fortunas para os filhos.
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Um dos casos mais emblemáticos no Brasil é o de Ronaldo Fenômeno. Segundo seu filho Ronald, o ex-jogador prefere direcionar a maior parte de seu patrimônio à Fundação Fenômenos, que atua com projetos sociais. Embora o valor total da fortuna de Ronaldo não seja oficialmente divulgado, estima-se que ele tenha acumulado mais de R$ 1 bilhão, somando ganhos com futebol, publicidade e investimentos, segundo estimativa da revista Forbes Brasil.
Outra brasileira que não pretende deixar nada aos filhos é Gretchen, a rainha do rebolado. Em entrevista ao programa Foi Mau, a cantora afirmou abertamente: “Sou de gastar e não guardo nada. Sempre falo para meus filhos: trabalhem, porque eu vou gastar tudo antes de morrer.” Gretchen tem sete filhos, entre eles o cantor Thammy Miranda, e mantém uma vida ativa nas redes sociais e em projetos musicais e televisivos.
Internacionalmente, esse movimento é ainda mais visível entre bilionários e estrelas de Hollywood. O ator Jackie Chan, que acumula fortuna estimada em US$ 400 milhões (cerca de R$ 2,2 bilhões), declarou que doará todo seu dinheiro para instituições beneficentes. “Se meu filho for capaz, ele pode ganhar o próprio dinheiro. Caso contrário, estarei desperdiçando o meu”, afirmou em entrevista.
Outro exemplo é o cofundador da Microsoft, Bill Gates, cuja fortuna ultrapassa os US$ 110 bilhões (R$ 614 bilhões, segundo a cotação de julho de 2025). Gates já anunciou que cada um de seus três filhos receberá apenas 1% desse valor. O restante será destinado à Bill & Melinda Gates Foundation, que atua em educação, saúde e combate à pobreza.
A lista também inclui o criador do Facebook, Mark Zuckerberg, que, junto com a esposa Priscilla Chan, comprometeu-se a doar 99% de suas ações da Meta, atualmente avaliadas em mais de US$ 100 bilhões (R$ 558 bilhões), para melhorar o mundo para as futuras gerações.
Famosos da música também apresentam o mesmo posicionamento
Essas decisões não são exclusivas da elite tecnológica. No mundo da música, Elton John e Mick Jagger adotam posturas semelhantes. Elton John declarou que seus dois filhos terão estabilidade, mas não acesso irrestrito à fortuna. Já Jagger, cujo patrimônio é estimado em US$ 500 milhões (R$ 2,7 bilhões), planeja doar a maior parte para instituições de caridade.
Até mesmo o espião mais famoso do cinema entrou na lista. O ator Daniel Craig, que interpretou James Bond, classificou a herança como “detestável”. Com fortuna estimada em US$ 150 milhões (R$ 811 milhões), Craig planeja doar tudo. “Não quero deixar uma grande quantidade de dinheiro para a próxima geração. Acredito que isso atrapalha mais do que ajuda”, disse à revista Candis.
Esses posicionamentos levantam uma questão importante sobre educação financeira e meritocracia. Em vez de transmitir riqueza, muitos pais famosos preferem transmitir valores como responsabilidade, autonomia e trabalho.
Do ponto de vista econômico, doar grandes somas a fundações pode trazer vantagens fiscais e também proteger o patrimônio de conflitos familiares e disputas judiciais. Segundo Romero Tavares, sócio-líder de tributação internacional da PwC em entrevista ao O Povo, em muitos países, o planejamento sucessório que envolve fundações ou doações traz benefícios tributários relevantes e maior controle sobre o destino da riqueza.
O fenômeno, portanto, reflete uma tendência mais ampla que une decisões pessoais, estratégias financeiras e visão de mundo. Ao optarem por gastar ou doar suas fortunas, essas celebridades enviam uma mensagem clara: o legado pode ser mais poderoso do que a herança. E, para os filhos, resta um lembrete pragmático: é melhor garantir o próprio sustento.


