O aumento expressivo nos custos com medicamentos para perda de peso está pressionando os orçamentos das empresas nos Estados Unidos e pode desencadear uma nova onda de cortes em benefícios de saúde oferecidos aos trabalhadores.
De acordo com pesquisa divulgada pela consultoria Mercer nesta semana, 51% dos grandes empregadores com mais de 500 funcionários pretendem aumentar o compartilhamento de custos com os empregados a partir de 2026, como forma de mitigar os gastos crescentes com saúde.
A principal preocupação gira em torno dos remédios da classe GLP-1, como o Wegovy, da farmacêutica Novo Nordisk, e o Zepbound, da Eli Lilly. Esses medicamentos são indicados para controle da obesidade e diabetes tipo 2 e vêm sendo amplamente utilizados para emagrecimento. Contudo, seus custos são elevados. O Wegovy, por exemplo, tem preço de tabela de US$ 1.086, enquanto o Zepbound sai por US$ 1.059 — equivalentes à cerca de R$ 5.840 e R$ 5.695, respectivamente, na cotação atual de R$ 5,38 por dólar.
Ainda que muitos pacientes paguem menos por meio de planos de saúde empresariais, o custo final desses medicamentos tem causado forte impacto financeiro nas companhias. Segundo a Mercer, 77% dos empregadores apontam os remédios para perda de peso como uma das principais ameaças ao orçamento de benefícios.
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Redução de benefícios no horizonte
A pesquisa da consultoria revela que, em 2024, 45% das empresas planejavam aumentar a participação dos funcionários nos custos de saúde para o ano seguinte. Agora, esse número saltou para 51% mirando 2026. A elevação das franquias dos planos, dos tetos de gastos e a adoção de coparticipações mais altas são algumas das medidas já discutidas internamente em diversas corporações.
Alysha Fluno, líder de inovação farmacêutica da Mercer, afirma que o cenário é insustentável no longo prazo: “Mais clientes estão dizendo ‘não sei por quanto tempo mais conseguiremos bancar a cobertura desses medicamentos’. Os aumentos previstos para 2026 podem tornar inviável continuar oferecendo esse benefício da mesma forma.”
Como os gastos pesam no mercado farmacêutico
Os gastos com medicamentos prescritos aumentaram 8% nos Estados Unidos em 2024, e a previsão é de que o custo total com planos de saúde cresça 5,8% em 2025. Considerando o tamanho do mercado americano, que tem cerca de 158 milhões de pessoas com planos de saúde vinculados ao trabalho, segundo dados da Kaiser Family Foundation, a elevação nos custos representa uma pressão bilionária.
No caso dos medicamentos da classe GLP-1, a justificativa para a cobertura inicial por parte das empresas era a expectativa de redução nos gastos futuros com doenças crônicas relacionadas à obesidade. No entanto, os altos preços e o aumento da demanda colocam essa estratégia sob revisão.
Intermediários sob escrutínio
Outro elemento central no debate são as administradoras de benefícios farmacêuticos, conhecidas como PBMs (Pharmacy Benefit Managers), como CVS Caremark, Express Scripts (da Cigna) e Optum Rx (da UnitedHealth). Essas empresas negociam os preços dos medicamentos com os laboratórios, montam listas de remédios cobertos pelos planos e intermediam o reembolso às farmácias.
Segundo os fabricantes de medicamentos, essas administradoras retêm parte significativa dos descontos negociados com os laboratórios, sem necessariamente repassar os valores aos consumidores ou às empresas contratantes. Esse modelo está no centro de críticas de reguladores e empregadores, que exigem mais transparência nas operações.
Com isso, 34% dos empregadores já consideram trocar de administradora nos próximos dois anos. Outros 40% avaliam adotar novos modelos de contratação, como os que baseiam o preço dos medicamentos no valor pago pelas farmácias, e não nas negociações com laboratórios.
O fundo de pensão da Califórnia, CalPERS, o segundo maior comprador público de planos de saúde dos EUA, anunciou que substituirá a Optum Rx pela CVS Caremark em 2026. O novo contrato de cinco anos prevê mais transparência e maior controle sobre as decisões de cobertura.
Reflexos para o Brasil
Ainda que o foco atual seja o mercado norte-americano, os efeitos dessa crise podem ressoar globalmente. O Brasil, por exemplo, já começa a sentir a influência da popularização dos medicamentos para emagrecimento. A venda de semaglutida (princípio ativo do Ozempic e do Wegovy) no país cresceu 136% entre 2022 e 2024, segundo a IQVIA, empresa de inteligência em saúde.
Em 2023, os gastos dos brasileiros com medicamentos para obesidade já somavam R$ 1,2 bilhão, conforme dados da Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa (Interfarma). A Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) discute a inclusão de novos medicamentos em planos de saúde, o que pode replicar, em menor escala, os desafios observados nos EUA.
Caminhos possíveis
Diante da escalada dos custos, especialistas apontam que o mercado precisará buscar soluções como negociações mais rígidas, maior competição entre fabricantes, uso de genéricos e transparência na cadeia de precificação.
Para as empresas, a revisão das políticas de benefícios será inevitável. O equilíbrio entre cuidado com os funcionários e sustentabilidade financeira deve ditar o futuro da cobertura de medicamentos de alto custo, como os da classe GLP-1.
*Entrevista concedida a Forbes


