A imposição de medidas restritivas ao ex-presidente Jair Bolsonaro, incluindo o uso de tornozeleira eletrônica, restrição ao uso de redes sociais e limitação de movimentação, intensifica a crise institucional no Brasil. A decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), representa mais do que um desdobramento jurídico: ela ecoa fortemente na economia, ao elevar o grau de instabilidade política e potencializar as tensões comerciais com os Estados Unidos.
A operação da Polícia Federal, realizada nesta sexta-feira, soma-se a um contexto geopolítico delicado. A retaliação de Donald Trump — atual presidente dos EUA — que anunciou tarifas de 50% sobre todos os produtos brasileiros, foi justificada como resposta à “perseguição” ao ex-presidente. Isso acendeu um alerta vermelho em setores exportadores e acentuou a percepção de risco por parte de investidores nacionais e internacionais.
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O efeito nas exportações e no PIB
Os EUA são o segundo maior destino das exportações brasileiras, respondendo por 12% das vendas externas em 2024. Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, o Brasil exportou cerca de US$ 36 bilhões para os Estados Unidos no último ano, o que equivale a aproximadamente R$ 193,6 bilhões (com base na cotação de R$ 5,38 por dólar). As tarifas de 50% podem comprometer fortemente esse fluxo.
Apenas os setores de aço, celulose, café e aeronaves somam quase 40% dessas exportações. Com o aumento das tarifas, esses produtos perdem competitividade e enfrentam risco real de queda de receita, impactando diretamente o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. De acordo com estimativas preliminares da Fundação Getulio Vargas (FGV), uma redução de 15% nas exportações para os EUA pode causar retração de até 0,4 ponto percentual no PIB de 2025.
Prisão de Bolsonaro desestimula investimentos
A cena de um ex-presidente colocando tornozeleira eletrônica tem alto impacto simbólico e real. Para o mercado, é um sinal de que a instabilidade política tende a se aprofundar. A tensão entre os poderes, com um ex-presidente investigado por tentativa de golpe e o atual presidente acusando seus opositores de “traição à pátria”, amplia a percepção de risco institucional.
Investidores estrangeiros vêm adotando postura mais cautelosa. Segundo levantamento da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais), o fluxo de capital estrangeiro para a renda variável brasileira caiu 19% nas duas primeiras semanas de julho, saindo de R$ 9,2 bilhões em junho para R$ 7,4 bilhões. A alta volatilidade e a insegurança jurídica são apontadas como os principais fatores para o recuo.
Dólar e juros sob pressão
Com o acirramento da crise política e as ameaças comerciais externas, o dólar passou a operar em alta. No fechamento do dia 17 de julho, a moeda americana chegou a R$ 5,46, maior valor desde fevereiro. A valorização da moeda impacta a inflação, encarecendo produtos importados e pressionando ainda mais o custo de vida.
Esse movimento também afeta as decisões de política monetária. A expectativa de corte na taxa Selic, atualmente em 15% ao ano, pode ser adiada. A inflação acumulada em 12 meses já está em 5,3%, segundo o IBGE, acima da meta central de 3%. Com um cenário externo adverso e instabilidade doméstica, o Banco Central pode manter os juros altos por mais tempo, o que encarece o crédito e limita a retomada do crescimento.
Setores mais impactados
Além da agroindústria e da metalurgia, que estão diretamente ligadas ao comércio com os Estados Unidos, o setor aéreo também está em alerta. A Embraer, por exemplo, tem cerca de 55% de sua receita gerada nos EUA. Com as novas tarifas, contratos em negociação podem ser suspensos ou revistos, comprometendo a geração de divisas e empregos.
Outro segmento afetado é o da tecnologia. Empresas que dependem de componentes americanos para produção local enfrentam riscos logísticos e de aumento de custo. Ainda que o governo brasileiro esteja buscando ampliar relações com a China e União Europeia, esses movimentos não têm impacto imediato e não compensam a perda potencial do mercado americano.
Riscos à imagem internacional e à confiança
O apoio de Donald Trump a Bolsonaro, e sua justificativa das tarifas como resposta a uma “perseguição política”, causou desconforto diplomático e aumentou a insegurança sobre a soberania das instituições brasileiras. Essa percepção pode ter consequências graves na reputação do país. Agências de risco como a Fitch e a S&P Global já destacaram que episódios de instabilidade política e institucional são monitorados em tempo real para eventual reavaliação da nota de crédito soberana do Brasil.
Segundo relatório da Moody’s publicado em 15 de julho, a adoção de medidas populistas ou de confronto institucional pode dificultar a execução de reformas fiscais e travar a atração de investimentos de longo prazo.
Caminhos possíveis
Economistas e analistas políticos defendem que, para evitar uma deterioração maior do ambiente econômico, o Brasil precisa adotar uma postura institucional firme e transparente, preservando a estabilidade entre os poderes. O governo também deve intensificar a diplomacia econômica para reverter ou atenuar as tarifas impostas pelos EUA.
Ao mesmo tempo, é fundamental que o país fortaleça sua imagem de respeito às instituições e ao Estado de Direito. A confiança internacional é um ativo econômico tão importante quanto as commodities. Sem ela, o capital foge, o crescimento estagna e o custo da instabilidade recai sobre toda a população.


