No segundo dia do Rio Innovation Week 2025 (RIW), a Arena B2Mamy foi palco de uma das conversas mais potentes do evento: “Raízes do Futuro: Inovação com Ancestralidade”. O painel reuniu Xan Ravelli, CIO e empreendedora multiverso à frente da Soul Vaidosa LTDA, e Noéle Gomes, palestrante e pesquisadora de saberes tradicionais, para discutir como integrar inteligência artificial, telemedicina e práticas ancestrais na construção de um sistema de saúde mais humano, inclusivo e sustentável.

Mas, para as especialistas, existe uma contradição grave: enquanto saberes indígenas, africanos e populares seguem subvalorizados ou invisibilizados pela medicina tradicional, o setor wellness (bem-estar) cresce usando essas mesmas práticas como produtos de luxo para consumidores de alta renda.
“Ancestralidade não é produto. Infelizmente, está sendo tratada como artigo de luxo”, afirmou Xan Ravelli, destacando que a mercantilização descontextualiza a essência desses conhecimentos e apaga suas origens.
Tecnologia e escuta profunda: um equilíbrio necessário
Noéle reforçou que o avanço da inteligência artificial e da telemedicina não pode ignorar a dimensão humana do cuidado. “Ainda que com toda a tecnologia, as pessoas precisam de escuta profunda. Precisamos reumanizar as pessoas. Está todo mundo exausto, perdido, e agora corre atrás de soluções holísticas”, disse.
Segundo ela, a pandemia deixou claro o quanto somos frágeis e vulneráveis, reforçando a necessidade de reconectar ciência, natureza e comunidade. “Na pandemia, entendemos o processo humano. Olhar para o futuro exige olhar para dentro”, destacou.
Mercado bilionário, mas pouco inclusivo
O mercado brasileiro de wellness cresce em ritmo acelerado, mas a distribuição de oportunidades e reconhecimento permanece desigual. Xan apontou a dicotomia: práticas como uso de chás, homeopatia e rituais tradicionais são desconsideradas pela medicina oficial, mas ganham valor financeiro quando reembaladas para o público premium.
“Não precisamos ir muito longe: a ayahuasca [bebida psicodélica tradicional sul-americana] é vendida como artigo de luxo em alguns países, enquanto aqui não somos nem convidados para participar do debate”, criticou.
Ela ainda acrescentou que essa disparidade também se reflete em políticas públicas e no acesso a recursos para pesquisa. Muitos conhecimentos permanecem restritos às comunidades que os originaram, sem apoio para sua preservação ou reconhecimento científico.
Resgatar e dar crédito
O painel também defendeu que a tecnologia seja usada como ferramenta para reconhecer a origem dos conhecimentos. Plataformas digitais, blockchain e bancos de dados colaborativos foram citados como possíveis soluções para garantir que o crédito seja atribuído de forma justa e transparente.
“A tecnologia pode ajudar, reforçando de onde veio cada saber. Se cada um se ocupasse de conhecer sua própria história, todo mundo teria lugar de fala”, disse Noéle.
Para as palestrantes, resgatar raízes é mais do que um ato cultural: é um movimento econômico e político. O futuro da saúde, afirmam, depende da capacidade de combinar inovação tecnológica com práticas ancestrais de forma ética e inclusiva. Isso implica criar espaços de diálogo, promover intercâmbio de saberes e investir em educação que valorize tanto o conhecimento acadêmico quanto a sabedoria popular.
“O futuro é dos curiosos. Quem não olhar para dentro não vai conseguir projetar o que vem pela frente”, concluiu Noéle.
Sobre o Rio Innovation Week 2025 (RIW)
O Rio Innovation Week é o maior evento de inovação e tecnologia da América Latina, reunindo empreendedores, líderes, investidores, startups e empresas globais em um ambiente voltado à troca de conhecimento e à criação de soluções para desafios atuais e futuros.
Realizado no Píer Mauá, no Rio de Janeiro, o RIW 25 apresenta centenas de palestras, experiências imersivas e oportunidades de conexão que exploram temas como inteligência artificial, sustentabilidade, saúde, educação e inclusão social. Mais do que um espaço de negócios, o evento se posiciona como um catalisador de ideias que unem tradição e modernidade, mostrando que inovação também significa honrar o passado para construir um amanhã mais equilibrado.


