Na manhã desta quarta-feira, 13 de agosto, o Rio Innovation Week 2025 (RIW), um dos maiores eventos de inovação e tecnologia da América Latina, abriu espaço para uma discussão que foi além de algoritmos e dispositivos: o impacto direto da transformação digital no cérebro humano e nas relações sociais.
No palco da Arena B2Mamy, a conversa intitulada “Humanos em Beta: como a tecnologia está nos reprogramando” foi conduzida por Mônica Magalhães, CEO e fundadora da Moovers, e Marcel Nobre, fundador e CEO da BetaLab.

Tecnologia e cultura: percepções que dividem o mundo
Mônica iniciou destacando que a aceitação — ou rejeição — da tecnologia não ocorre de maneira uniforme ao redor do planeta. Segundo ela, a forma como diferentes culturas enxergam robôs e inteligência artificial está diretamente ligada à construção histórica de cada sociedade.
Como exemplo, citou o Japão, onde o envelhecimento populacional e a escassez de mão de obra levaram à integração de máquinas em atividades cotidianas. Robôs são usados para cuidar de idosos, automatizar serviços e preencher lacunas operacionais. Em contrapartida, em outras regiões, o receio de que a inteligência artificial substitua empregos ou comprometa a privacidade ainda freia sua adoção.
Atenção fragmentada: desafio para marcas e criadores
Outro ponto central do debate foi o impacto da hiperconexão na capacidade de concentração das novas gerações. Mônica compartilhou uma observação pessoal ao notar que sua filha e amigas ouviam apenas trechos curtos de músicas populares no TikTok, com duração de cerca de 15 segundos.
Segundo ela, esse comportamento revela uma atenção cada vez mais fragmentada, o que exige que marcas e criadores de conteúdo se adaptem. A comunicação precisa ser objetiva, direta e rápida para manter o interesse do público.
Especialistas em marketing já identificam essa tendência e vêm apostando em formatos curtos, dinâmicos e visuais para garantir engajamento. No entanto, esse movimento também levanta dúvidas sobre a profundidade das mensagens e a capacidade de retenção de informações a longo prazo.
O risco de viver apenas pelos dados
Durante o painel, Mônica também criticou o que chamou de “fetiche dos dados” — a ideia de que apenas propostas validadas por métricas merecem avançar. Para ela, essa lógica limita a criatividade e sufoca o espaço para experimentação.
“Perdemos a capacidade de construir no escuro, no vazio — e é justamente aí que surgem as grandes ideias”, afirmou. A executiva defendeu que a inovação exige liberdade para errar e coragem para explorar caminhos incertos, sem a pressão constante por resultados imediatos.
Outro alerta foi sobre o comportamento coletivo diante de tendências tecnológicas. Mônica citou como exemplo a adesão em massa de restaurantes ao uso exclusivo de cardápios via QR code durante e após a pandemia. Embora prático para alguns, o modelo afastou clientes menos familiarizados com tecnologia.
Segundo ela, seguir o que todos estão fazendo nem sempre é a melhor escolha. É preciso avaliar o contexto e considerar a diversidade de perfis e necessidades dos usuários.
Humanos em constante atualização
O conceito de “Humanos em Beta”, que deu nome ao painel, remete à ideia de que, assim como softwares, as pessoas também estão em constante atualização. Essa mentalidade, segundo Mônica, será essencial para o futuro.
A chave estará em equilibrar o uso das inovações com a preservação de habilidades humanas fundamentais, como empatia, pensamento crítico e criatividade. Para ela, o maior desafio não é tecnológico, mas humano: aprender a se reprogramar sem perder a essência.


