Quando eu nasci, o Sistema Único de Saúde (SUS) ainda não existia. Quando foi criado, em 1988, eu já estava bem crescidinha e demorei para entender a relevância dessa rede que é compassiva com quem precisa do serviço de saúde, mas não tem dinheiro para pagar — não que os mais abastados deixem de utilizar, essa é uma das críticas da sociedade.

O SUS carrega duplamente as mesmas iniciais da palavra solidariedade. É assim que enxergo esta instituição sempre que me pergunto: o que seria de milhões de brasileiros se este Sistema não estivesse aí de portas abertas para todos os cidadãos?
Como diz o doutor Dráuzio Varella, “O SUS é a maior política de inserção social”. O médico explica: “É o maior programa de distribuição de renda: ele gasta R$ 240 bilhões e o Bolsa Família gasta 10% disso. O SUS faz um trabalho maravilhoso no Brasil e, infelizmente, o que fica são só os exemplos das situações em que ele não funciona ou funciona mal”, defende.
Assino embaixo desse pensamento, porque já precisei do Sistema Único de Saúde e também já trabalhei em uma fundação que desenvolvia projetos para a melhoria dos serviços prestados pelo SUS. Sei o quanto é difícil manter a qualidade do atendimento oferecido diante da escassez de recursos para garantir os melhores profissionais, investir na construção de hospitais e postos de saúde e comprar equipamentos que acompanhem a evolução da medicina. Mesmo assim, o SUS é considerado o maior e mais complexo sistema de saúde pública do planeta.
Do Oiapoque ao Chuí
O SUS tem a dimensão de um continente, assim como o Brasil. É com ele que milhões de brasileiros — dos ribeirinhos aos pampas — podem contar quando o assunto é acolhimento. Foi com ele que combatemos um dos piores momentos da história mundial, a pandemia da covid-19. Os profissionais se colocaram no front para vacinar o maior número de pessoas, arriscando suas vidas.
O SUS é um gigante com responsabilidades que abrangem tanto ações quanto serviços de saúde que englobam atenção primária, média e alta complexidade, além de urgência e emergência, atenção hospitalar, ações e serviços das vigilâncias epidemiológica, sanitária, ambiental e assistência farmacêutica.
Traduzindo: quem não tem plano particular e necessita medir a pressão sanguínea pode procurar uma Unidade Básica de Saúde; se precisa fazer uma consulta com um ginecologista, é só ir a uma Policlínica e marcar. Se o caso é mais sério, como um transplante, por exemplo, o SUS resolve.
Universalização, equidade, integralidade
Nem sempre esses princípios são cumpridos à risca — afinal, o ser humano é falho e os poderes públicos também. Para que o SUS exista e cumpra seu papel, é preciso o envolvimento da sociedade e das três esferas públicas: federal, estadual e municipal, cada uma com participações específicas. Quando isso não acontece, a engrenagem não funciona, e aí vira e mexe o sistema é criticado, mas também é elogiado até mesmo por pacientes estrangeiros.
O órgão oficial, o Ministério da Saúde, diz que o SUS realiza aproximadamente 2,8 milhões de atendimentos por ano e presta assistência a pelo menos 215 milhões de pessoas. Quase 70% da população brasileira depende exclusivamente da rede pública. Os números mostram o quanto o SUS é valioso: dos 535 mil leitos hospitalares existentes no Brasil, 357 mil são mantidos pelo SUS, o que representa 67% da oferta nacional.
Cada um precisa fazer a sua parte
É fundamental saber a origem dos recursos que sustentam o SUS: 15% vêm dos cofres da União (seguridade social e impostos); os estados precisam garantir, no mínimo, 12% de suas receitas; e os municípios, no mínimo, 15%. Em ambos os casos, o capital vem da arrecadação própria de impostos e da verba repassada pelo Ministério da Saúde para o financiamento à saúde.
O orçamento do SUS este ano ultrapassou os R$ 230 bilhões, mas ainda depende das emendas parlamentares, o que abre caminho para a influência política na destinação dos recursos, gerando preocupações sobre a transparência e o monitoramento desses valores. Denúncias existem, mas este é um outro capítulo da história.
Desafios futuros
A Medicina está em constante evolução. E, pelo que vejo, o SUS tem se esforçado para acompanhar. Foi um dos primeiros a apostar na Telemedicina, criou um programa para atrair profissionais dispostos a prestar atendimento nos locais mais longínquos do país, o Mais Médicos, já disponibiliza a cirurgia robótica, desenvolveu o Hospital Inteligente e, recentemente, lançou o programa Agora Tem Especialistas, com o intuito de reduzir filas, acelerando o atendimento com a oferta de mais consultas, exames e cirurgias. Um investimento de mais de R$ 440 milhões nessa primeira etapa.
Temos os maiores programas de vacinação e de transplantes do mundo. Em pouco mais de três décadas, foram muitas conquistas, mas, em se tratando de saúde, sempre haverá cobranças — afinal, este é um direito garantido pela nossa Carta Magna.
Eu sou fã de carteirinha do SUS. Que venham mais 35 anos com maturidade, responsabilidade e empenho em fazer o melhor! Neste 19 de setembro só posso te desejar: Feliz Aniversário!
Viva o SUS! O SUS salva vidas!


